Uma 'via média' interpretativa para o ceticismo sextiano e sua aplicação na análise de 'Contra os retóricos' / A 'Middle Way' Interpretation of the Sextan Skepticism and its Application in the

Please download to get full document.

View again

of 37
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Published
Paper in which we develop a way to interpret the Ancient skepticism, especially the pyrrhonic one, and we exempt the skeptical dýnamis of the apraxia’s accusation. This interpretive ‘middle way’ emerges as a mode to overcome the aporiae between the
  SKÉPSIS, ISSN 1981-4194, ANO VII, Nº 11, 2014, p. 33-69.   UMA ‘VIA MÉDIA’ INTERPRETATIVA PARA O CETICISMO SEXTIANO E SUA APLICAÇÃO NA ANÁLISE DE CONTRA OS  RETÓRICOS    RODRIGO PINTO DE BRITO (Universidade Federal de Sergipe)  E-mail  : www.rodrigobrito@gmail.com Resumo: Artigo em que se desenvolve um modo de interpretar o ceticismo Antigo, especialmente o pirrônico, e que isenta a d   ! namis cética da acusação de apraxía. Essa ‘via média’ interpretativa emerge como um modo de superar as aporias entre as interpretações rústica e urbana e tem sua eficácia testada quando aplicada como ferramenta exegética para ‘ Contra os Retóricos’  . Palavras-chave:  Pirronismo – Sexto Empírico – Via Média – ‘Contra os Retóricos’. Abstract: Paper in which we develop a way to interpret the Ancient skepticism, especially the pyrrhonic one, and we exempt the skeptical d   ! namis of the apraxia’s   accusation. This interpretive ‘middle way’ emerges as a mode to overcome the aporiae  between the rustic and urbane interpretations, and it has its efficiency tested when applied as an exegetical tool for ‘  Against the Rethors’. Keywords:  Pyrrhonism – Sextus Empiricus – Middle Way – ‘Against the Rethors’. Abreviações: * Aristóteles    Uma ‘via média’ interpretativa para o ceticismo sextiano "#  Met.  = Metafísica  Phys.  = Física  Rhet.  = Arte Retórica * Diógenes Laércio  D.L . = Vidas e Doutrinas dos Filósofos * Epicteto  Diss . = Discursos * Platão Górg.  = Górgias  Phlb.  = Filebo Sof.  = Sofista Teet.  = Teeteto Tim . = Timeu * Sexto Empírico  P.H.  = Esboços Pirrônicos  Adv. Log  . = Contra os Lógicos  Adv. Eth.  = Contra os Éticos  Adv. Gram . = Contra os Gramáticos  Adv. Rhet  . = Contra os Retóricos 1 Em poucas palavras, a questão sobre a qual nos debruçaremos aqui é a da ‘inviabilidade prática do ceticismo’, ou apraxia ( !"#$%&$  / !'('(#)*+&$ ). Ou melhor: nosso problema aqui é como Sexto Empírico pôde ter revertido os argumentos que acusam o ceticismo de inviável, dando à sua ,-'$ µ ./  a devida coerência pragmática. Mas, para interpretarmos a coerência pragmática do ceticismo sextiano, teremos que verificar se as exegeses correntes, usualmente chamadas de rústica e urbana, são suficientes. Pensamos que não, além disso, são mutuamente exclusivas, portanto, aplicando o próprio ceticismo a essa ,.$01'&$ , suspenderemos o juízo e não aderiremos a nenhuma integralmente, em vez disso, coagidos pelo modo como percebemos o ceticismo, engendraremos outra ferramenta interpretativa, uma ‘via média’ que terá sua eficácia atestada mediante análise de ‘ Contra os retóricos ’ (  Adv. Rhet  .). Obra importante porque nela Sexto lida com dois aspectos fundamentais da vida: linguagem e  SKÉPSIS, ANO VII, Nº 11, 2014 BRITO, R.   "$ execução de um ofício; demonstrando como o cético pode comunicar-se e comportar-se como os homens comuns, sem que o ceticismo lhe seja um empecilho. 2 Os detratores do ceticismo de Sexto Empírico tratam-no como se tivesse herdado um acúmulo de críticas teimosamente recursivas que atacariam diferentes  pontos do que veio a ser entendido como a +2("3.24   !)1)5  e que a acusam de inviabilidade prática (ou inatividade = !'('(#)*+&$ ) 1  — inclusive afirmando que o ceticismo depõe contra a própria vida — e também de inviabilidade discursiva (obviamente, um outro aspecto do argumento da inviabilidade prática, mas que se dirige à prática comunicativa), por que o cético, ao comunicar-se, (1) autorefuta-se, por que um discurso pressupõe uma verdade, e assim, (2) o emissor fala o que considera ser verdadeiro, e, se assim não for, (3) ao invés de comunicar-se, o cético deveria calar-se 2 . Além desses problemas, considerando que Sexto era médico e que prescrevia o ceticismo como terapia, ele não estaria sendo dogmático ao fazê-lo? 1  Em Sexto Empírico não há ocorrências do vocábulo !"#$%&$  para referir-se à inatividade, ao invés disso o vocábulo recorrente é !'('(#)*+&$  (  Adv. Eth. 162). Ressalto ainda que, nessa passagem, Sexto está a citar um fragmento de Crisipo ( Chrysippus Phil., Fragmenta logica et physica , Fr.119), dessa forma, o argumento aqui levantado contra a viabilidade prática do ceticismo remonta a Crisipo, e é a ele que Sexto Empírico pretende refutar nos passos  Adv. Eth. 162-168. 2  Uma crítica que já está presente em Aristóteles (Met.   6 4, 1006a 12), mas dirigida aos relativistas,  provavelmente heraclíticos (como Crátilo), o próprio Heráclito, Protágoras e Górgias, acusados de !,7'$ µ &$ . Por sua vez, para Cassin (‘CASSIN, B. O efeito sofístico. São Paulo: Editora 34, 2005’), a refutação de Aristóteles é tripla, e envolve, cito: “1. Refutação lógica: A refutação mais óbvia, por provir diretamente da própria definição da refutação, consiste em um processo de contradição lógica. O papel do adversário é o de afirmar um enunciado que constitua, direta ou indiretamente, uma recusa do princípio. Podem-se imaginar dois tipos de enunciados. Os primeiros remetem aos próprios termos do enunciado canônico, diretamente — “o mesmo é e não é”, “o homem negro é branco”. Os segundos constituem um caso particular dos primeiros, aproximando-se dos enunciados já atribuídos por Platão aos relativistas, e se formulam em termos de verdade e de falsidade: tudo é verdadeiro, tudo é falso, o mesmo é simultaneamente verdadeiro e falso. (...) 2. Refutação pragmática: Assim, a segunda descrição não concerne ao nível da contradição lógica, característica de toda refutação, mas se situa no nível do que se poderia adequadamente chamar de uma contradição pragmática. Pois ela não se refere ao conteúdo da tese propriamente dito, mas à posição mesma na qual a refutação põe o adversário: se ele recusa o princípio, aceita, entretanto, cumprir o papel de respondente, isto é, defender sua tese da contradição. A impossibilidade da contradição não lhe é, como ainda há pouco, infligida de fora, pois é constitutiva de sua própria decisão de argumentar: é sua atitude que é autocontraditória. (...) 3. Refutação transcendental: Para que haja refutação, portanto, basta “que o adversário diga algo” (1006 a12-13): isso não implica nem estabelecer uma premissa nem defender uma tese, mas apenas “significar algo, para si e para outrem” (a21). Na equivalência entre essas duas formulações, “dizer algo” e “significar algo”, consiste toda a condição da refutação, que é ao mesmo tempo sua condição de base: ela é necessária, não apenas para que haja refutação ou dialética, mas para que haja, antes de tudo, discurso.”  Nos importa mais o que Cassin chamaria de “refutação pragmática”. Agora, ela só pode fazer sentido se o alvo da refutação (os relativistas) levarem a sério as consequências pragmáticas de suas teses. Para aqueles que as tomam apenas como jogos mentais, a refutação pragmática é ineficaz, porque não há consequências práticas, nem não contraditórias e nem autocontraditórias.    Uma ‘via média’ interpretativa para o ceticismo sextiano "% Prescrever algo não significa um atestado da crença de que este algo é o melhor, ou o mais eficaz? Ademais, ocupar-se em todo um corpus filosoficus de um tema não denota uma adesão ao tema como uma espécie de corrente filosófica? Vejamos também o caso do buscador: diante da inquietude causada pela busca, escolher o ceticismo como via para obter a imperturbabilidade não é uma opção dogmática? Consultar um guia argumentativo que demonstre a fraqueza das proposições dogmáticas ao construírem raciocínios que pretendam entender o ‘funcionamento’ dos fenômenos, ao nos porem em contato com real, e de suas aparentes leis (a causalidade,  por exemplo) não seria também dogmatismo? Mais uma vez, embora (até onde podemos saber) as críticas imediatamente acima não tenham sido feitas na época de Sexto e diretamente contra ele, elas de fato são problemas hoje para aqueles que tentam interpretar os escritos sextianos, e devem ser investigadas por aqueles que pretendem entender a possibilidade pragmática do ceticismo pirrônico. Assim, na busca pela compreensão do significado do pirronismo e de sua viabilidade prática, comentadores, historiadores das ideias e filósofos tentaram interpretá-lo. Richard Popkin nos indicou o enorme peso dos argumentos céticos na história das ideias, para ele o ceticismo foi um dos principais elementos constituintes do  pensamento Moderno. Mas, o ceticismo Moderno possui características distintivas e temáticas que eram ausentes no ceticismo Antigo: a dúvida como procedimento positivo (e que chega a se dirigir à totalidade do mundo externo), o fideísmo, o caráter quase que exclusivamente epistemológico, e também o insulamento, são os exemplos mais expressivos.  Não obstante o ceticismo já fosse um tema constante de pesquisas desde o séc. XIX (ver Brochard, por exemplo), foi após Popkin que uma variedade ainda maior de interpretações dos ceticismos Antigo e Moderno passou a vigorar. Contudo, a partir da década de 1970 começou a haver um alinhamento entre essas diversas interpretações, surgindo assim duas correntes interpretativas que vieram a ser conhecidas como ‘rústica’ e ‘urbana’ e que passaram a disputar a hegemonia 3 . 3  Desse modo, segundo Barnes ( ‘ The Beliefs of a Pyrrhonist  . In:  Proceedings of the Cambridge  Philological Society , n°208. Cambridge, 1982’) podemos caracterizar as posturas rústica e urbana da seguinte forma: ‘Um intérprete que encontra o pirronismo rústico em  PH apelará inicialmente a duas características da obra de Sexto. Primeiro, muitos dos argumentos em  PH  parecem demolir todas as crenças quanto a determinado tópico: os ataques à causalidade ou ao tempo ou à verdade, digamos, não  parecem restringir seus alvos a posições científicas ou filosóficas nessas áreas; e os cinco tropos de Agripa, em termos aos quais muito da argumentação de  PH é conduzida, parecem ser totalmente  SKÉPSIS, ANO VII, Nº 11, 2014 BRITO, R.   "& 3 Pelo lado dos ‘urbanos’, o artigo fundamental data de 1979 e foi escrito por Michael Frede 4 , e mesmo em alemão teve bastante repercussão entre os intérpretes  britânicos do ceticismo Antigo. Mas foi somente depois de sua tradução para o inglês em 1989 que ‘ The Sceptic’s Beliefs ’ ganhou maior notoriedade. Em 1980, Myles Burnyeat publicou ‘ Can the Sceptic Live His Scepticism?’  5   propondo uma nova forma de interpretar o ceticismo Antigo que veio a ser conhecida como interpretação ‘rústica’. Mesmo assim, nesse artigo ainda há diversos pontos de contato entre as visões de Frede e Burnyeat. Só mais tarde, com a primeira publicação de ‘ The Sceptic in His Place and Time’  6 ,   em 1984,   que Burnyeat passou a defender uma interpretação do ceticismo de modalidade pirrônica radicalmente oposta à visão de Frede. Tendo descrito esse cenário, nosso objetivo de agora em diante será entender o que significam as duas posições, a rústica e a urbana, para podermos entender a razão de evocarem-se certos filósofos para endossar uma ou outra postura interpretativa, ou uma ou outra réplica. Nosso objetivo mais geral é argumentar a favor de uma via indiferentes a quaisquer distinções entre teoria científica e opinião cotidiana. Em segundo lugar,  PH esclarece que os oponentes do pirronismo regularmente construíram o pirronismo de maneira rústica — o notório argumento de que os céticos não podem agir evidentemente pressupõe que os pirrônicos não têm quaisquer crenças. (...) Um intérprete que encontra o pirronismo urbano em  PH também apelará inicialmente a duas características da obra de Sexto. Primeiramente, Sexto frequentemente caracteriza o  pirronismo referindo-se aos seus oponentes, os ‘dogmáticos’: ‘o cético, sendo um filantropo, deseja curar  pelo discurso, no melhor de sua habilidade, a pretensão e a precipitação dos dogmáticos’ (  PH III, 280). O  pirronismo é uma terapia, uma cura da doença mental induzida pelos cientistas, filósofos, e outros charlatães sabidos: ele não se preocupa com as crenças ordinárias dos homens ordinários. Em segundo lugar, Sexto frequentemente apresenta-se como o campeão da 8&9/ , da vida ordinária ou do senso comum. Como Berkeley, ele está eternamente atacando as metafísicas e reduzindo os homens ao senso comum. Ele é um defensor, não um oponente, das crenças comuns’. 4  Com o título srcinal de ‘  Des Skeptikers Meinungen ’, apareceu pela primeira vez in: ‘  Neue Hefte für  Philosophie’, Heft 15/16 (1979), 102-129. Traduzido para o inglês como: ‘The Skeptic’s Beliefs’,  in: Michael Frede, ‘  Essays in Ancient Philosophy’  , (University of Minnesota Press, 1989), capítulo 10. Existe uma versão em português chamada ‘As Crenças do Cético’,  in: Revista Sképsis: http://www.revista-skepsis.com/pdf/139_03.pdf 5  Apareceu pela primeira vez in: ‘Doubt and Dogmatism: Essays in Hellenistic Epistemology’   (Claredon Press, 1980), capítulo 2. Reimpresso in : ‘The Skeptical Tradition’   (University of California Press, 1986), capítulo 6. Há uma versão em português desse artigo chamada: ‘Pode o Cético Viver seu Ceticismo?’  ,  publicada em Revista Sképsis: http://www.revista-skepsis.com/pdf/201_05.pdf 6  Apareceu pela primeira vez in: ‘Philosophy in History: Essays on the Historiography of Philosophy’ (Cambridge University Press, 1984), capítulo 10. Reimpresso em uma versão expandida in : ‘Scepticism  from the Renaissance to the Enlightement’   (Wolfenbütteler Forschungen Band 35, Wiesbaden, 1987), 13-43. Há uma versão em português chamada: ‘O Cético em Seu Lugar e Tempo’  . publicada pela Revista Kínesis: http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/Kinesis/Traducao.pdf
Similar documents
View more...
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks
SAVE OUR EARTH

We need your sign to support Project to invent "SMART AND CONTROLLABLE REFLECTIVE BALLOONS" to cover the Sun and Save Our Earth.

More details...

Sign Now!

We are very appreciated for your Prompt Action!

x