SUBCULTURA, JUVENTUDE E AUTOLESÃO: UMA CONTRIBUIÇÃO SOCIOLÓGICA ACERCA DO COMPORTAMENTO AUTODESTRUTIVO

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SUBCULTURA, JUVENTUDE E AUTOLESÃO: UMA CONTRIBUIÇÃO SOCIOLÓGICA ACERCA DO COMPORTAMENTO AUTODESTRUTIVO
  SUBCULTURA, JUVENTUDE E AUTOLESÃO: UMA CONTRIBUIÇÃO SOCIOLÓGICA ACERCA DO COMPORTAMENTO AUTODESTRUTIVO AVANÇO DE INVESTIGAÇÃO EM CURSO   GT 26: SOCIOLOGIA DO CORPO E AS EMOÇÕES JOÃO PAULO BRAGA CAVALCANTE, UFC PEREGRINA DE FÁTIMA CAPELO CAVALCANTE, UFC RESUMO Poucos estudos em Ciências Sociais têm dado atenção ao fenômeno da automutilação, que tem atingido adolescentes e jovens de vários países, havendo certo volume de pesquisas médicas e  psicológicas. O objetivo aqui foi tratá-lo dentro de uma perspectiva sociológica. Considerando-o como uma dentre outras manifestações de comportamento autodestrutivo, partimos de análise empírica sistemática, pondo em um contexto interacional o que parecia ser somente um drama psicológico. Embora a automutilação não seja exclusiva aos jovens undergrounds , este foi o contexto escolhido para esta investigação, de modo que pudemos também explorar aspectos das subculturas que vão além de questões como estilo e individualidade. Concluímos que por trás da busca por autenticidade podem estar oculto problemas de privação emocional. Palavras-chave:  automutilação; comportamento autodestrutivo; subcultura RESUMEN SUBCULTURA, JUVENTUD Y AUTOLESIÓN: UNA CONTRIBUCIÓN SOCIOLÓGICA ACERCA DEL COMPORTAMIENTO AUTODESTRUCTIVO Pocos estudios en Ciencias Sociales han dado atención al fenómeno de la automutilación que ha afectado adolescentes y jóvenes de varios países puesto que hay un cierto volumen de investigaciones médicas y psicológicas. El objetivo aquí fue tratarlo dentro de una perspectiva sociológica. Dado de entre otras manifestaciones de comportamiento autodestructivo, empezamos por un análisis empírico sistemático, poniendo en un contexto interacional lo que solo parecía ser un drama psicológico. Aunque la automutilación no sea exclusiva a los jóvenes undergrounds , este fue el contexto elegido para esta investigación de forma que pudimos explorar aspectos de las subculturas que van más allá de cuestiones como estilo e individualidad. Concluimos que por detrás de la búsqueda por autenticidad  puedan estar ocultos problemas de privación emocional. Palabras-clave:  automutilación; comportamiento autodestructivo; subcultura 1. INTRODUÇÃO Esta pesquisa investiga o comportamento autodestrutivo presente entre subculturas urbanas. Dentre as mais conhecidas atualmente, podemos citar a subcultura emo, a gótica, os otakus, os  scene   kids  e os  From  Uk. Destas, as mais antigas são a gótica e a emo, cujo cenário surgiu na década de 1980  2 (Hodkinson, 2002; Kelley, Simon, 2007). Mas todas, em última instância, são derivadas do punk rock, srcinalmente underground  . Sob forte influência das redes sociais on-line, estas modas jovens têm migrado da cena regional de onde tiveram srcem e se espalharam pelo mundo na velocidade da Internet, mesmo fora do Ocidente. Mas não propriamente como uma consequência direta da tecnologia de comunicação. A este respeito, concordamos com Levina (2012), quando em seu artigo on-line sobre o assassinato de emos no Iraque observa o seguinte: Os ataques contra os jovens no mundo muçulmano por causa de seu gosto musical não é novo nem exclusivo para a região. Chamadas de formas "extremas" de heavy metal, hip-hop, punk e música de hardcore têm sido muito  popular, não apenas no Ocidente, mas globalmente - precisamente porque a raiva, o desespero e a intensidade da música reflete o tumulto de emoções e incertezas de identidades que define a adolescência e início da vida adulta em cada cultura. (Tradução livre, dos autores) 1 . Muitos adolescentes, ao passo que compartilham ou vivenciam as incertezas e conflitos emocionais desta fase, aderem a um estilo de vida, ou o mescla com outros para compor algo que  julgam próprio. Sejam altamente engajados ( undergrounds ) ou moderados (alternativos), os adolescentes possuem afinidade entre um ou outro estilo, sobretudo frequentando os espaços de sociabilidade que chamamos de cenários anticonvencionais. Ocorre que nos últimos anos, em meio a estes cenários, algo tem chamado mais atenção do que os estilos ousados de cabelo, tatuagens,  piercings , correntes, roupas pretas e outras excentricidades. O fato é que, de acordo com alguns estudos específicos, o comportamento autodestrutivo vem sendo  bastante observado entre adolescentes e jovens que aderem ou simpatizam com subculturas undergrounds , tais como   emo ou gótica (Zdanow, Wright, 2013; Phillipov, 2009; Young, Sweeting, West, 2006; Definis- Gojanović, Gugić, Sutlović, 2009) . Em algumas delas se pode constatar a manifestação de autolesões, sutis ou extremadas, que podem variar do abuso de álcool ou de drogas ilícitas até à automutilação ou cutting     –   ato de fazer cortes no próprio corpo  –   um fenômeno complexo e em certos casos chocante.   Apesar do contexto social de maior liberdade e de individualidade, os adolescentes de certas modas jovens contemporâneas parecem não ter reduzido os sinais de insatisfação e de revolta, embora careçam de conteúdo político ou de causas sociais aparentes. Isso torna o estado de insatisfação por vezes difuso, obscurecido e, portanto, de difícil compreensão, mesmo porque todos esses adolescentes estão imersos nas tecnologias digitais como nenhuma outra geração esteve, em outras palavras, é uma geração conectada. Por trás do desejo de um estilo próprio estaria oculto  problemas de privação emocional, traduzidos em conflitos existenciais, resultando em condutas de risco, compulsões, depressões, cutting   e até mesmo em suicídio, o que constitui, em seu bojo, aquilo que nos referimos como sendo autodestrutividade. Tendo este sido o foco de nossa análise, o campo empírico é a cidade de Fortaleza, que, como qualquer outra grande metrópole, possui sua diversidade de subculturas jovens. Estas, ao mesclarem elementos do pop, tornam-se modas jovens imersas no mainstream , despojadas de conteúdo político comum às gerações de algumas décadas atrás (Muggleton, 2000). Altamente conectadas aos processos de comunicação digital, parece evidente a força da cultura de consumo entre um segmento da juventude 1    No srcinal: “ Attacks on young people in the Muslim world because of their taste in music is neither new nor unique to the region. So-called "extreme" forms of heavy metal, hip-hop, punk and hardcore music have long been popular, not merely in the West but globally - precisely because the anger, despair and intensity of the music reflects the tumult of emotions and uncertain identities that define adolescence and young adulthood in every culture”. Fonte: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/03/201231911938716976.html, recuperado em 15 de janeiro de 2013.  3 que se pretende alternativa ou underground  . No entanto, tal conexão e seus efeitos no comportamento e na cultura das modas jovens podem parecer um tanto difusos ou assumir um tom especulativo, caso careça de estudo empírico.  Neste sentido, a partir de dados coletados junto “a galera under  ”, como costumam se referir a eles próprios  –   procuramos mostrar que um alto grau de conectividade com modas e mídias eletrônicas, uma das características mais marcantes das subculturas urbanas de hoje, não necessariamente conduz o indivíduo a estados maiores de felicidade e de segurança pessoal e afetiva. Afastando-se de questões acerca da autenticidade ou não de uma dada subcultura, o foco da análise gira em torno da privação emocional e da compulsividade em meio às estratégias de identidade de adolescentes que vivenciam um contexto underground  . A intenção, porém, não é reduzir o fenômeno das modas jovens urbanas à autodestrutividade. Mas, dado o preocupante crescimento deste fenômeno entre adolescentes e jovens, não apenas entre os undergrounds , muitas perspectivas de análise têm se concentrado em compreendê-lo (Ross, Heath, 2002; Cleaver, 2007; Whitlock, 2009; Christenson, Bolt, 2011; Muehlenkamp, Claes, Havertape, Plener, 2012). Por isso mesmo, a Sociologia tem um papel importante neste processo, especialmente no caso da automutilação, sobretudo porque as análises desenvolvidas tem se concentrado mais na perspectiva médica (Chandler, 2012, p. 444). Por sua vez, de início importa saber que autodestrutividade é uma categoria mais abrangente que automutilação, pois engloba o suicídio, o uso perigoso ou abusivo de álcool e drogas ilícitas,  bulimias, anorexias, uso de remédios para autoenvenamento (  self-poisoning  ), overdose, bem como a  própria automutilação ( cutting  ), usado aqui como sinônimo de autolesão (  self-injury ). Uma das formas de comportamento autodestrutivo, a automutilação parece ser um fenômeno mais recente. Também  possui escassez de análises realizadas em contexto de interação social, como apontam Adler & Adler (2007): A literatura existente sobre a auto-lesão em grande parte vem de uma  perspectiva psiquiátrica ou médica e muitas vezes seu foco é voltado para orientação de tratamento; existem poucos estudos sistemáticos ou rigorosos de autolesão em uma perspectiva sociológica. Uma vez que a maioria desses estudos foram realizados em indivíduos com um histórico de tratamento  psiquiátrico, pouco se sabe empiricamente sobre a autolesão entre pessoas que não são pacientes clínicos (p. 538). (Tradução livre, dos autores) 2 . Por este motivo, o comportamento autodestrutivo do corte ( cutting  ) aqui foi investigado como fenômeno recorrente em certas tribos urbanas, sendo resultado de descobertas do campo. Neste sentindo, este estudo contribui para preencher uma lacuna nesta área, que, diferentemente do fenômeno do suicídio, ainda tem poucos trabalhos oriundos das ciências sociais. Constitui uma seção de uma  pesquisa de doutorado, onde se selecionou alguns aspectos fundamentais resultantes de trabalho de acompanhamento, registro e conversação com jovens inseridos em subculturas ou modas urbanas. 2. PERSPECTIVA DE ANÁLISE E APONTAMENTOS METODOLÓGICOS O objetivo deste trabalho é analisar e discutir outros fatores envolvidos na autolesão, sobretudo quando se manifesta na forma de automutilação, que parece estar crescendo fora do ambiente clínico, onde geralmente é analisado a partir de casos individuais ou como distúrbios psicológicos 2    No srcinal: “  The extant literature on self-injury largely comes from a psychiatric or medical perspective and is often treatment oriented in its focus; there are few systematic or rigorous studies of self-injury from a sociological perspective. Since the majority of these studies have been conducted on individuals with a history of psychiatric treatment, little is known empirically about self- injury among people who are not clinical inpatients” (p. 538).    4 (Whitlock, 2009). Ainda em relação ao objetivo, quando nos voltamos para o subuniverso autodestrutivo de algumas tendências de subculturas, temos em mente outro aspecto fundamental: a necessidade de analisar as subculturas não tanto pelo viés da moda, do estilo, da autenticidade e da liberdade que costumam exprimir. Mas explorar o outro lado da fronteira da liberdade e da autônima da ação subjacente a modas comportamentais das sociedades de consumo. Ao falarmos em subculturas, estamos nos referindo a um mundo particular de relações e de interações sociais num processo bastante dinâmico, por não estar isolado de outros agentes e instituições.  Nossa abordagem, portanto, agrega consideravelmente uma perspectiva sociológica interacionista. Isso tem repercussões importantes para a ampliação do conhecimento do fenômeno em questão, colaborando para vislumbrar outros fatores envolvidos no comportamento autodestrutivo que não apenas os de caráter patológico ou clínico. Assim, parte importante desta estratégia  –   não muito diferente das etnografias urbanas  –   incorpora a perspectiva de análise lançada pela sociologia do desvio de Howard Becker, trabalho ainda instigante apesar de publicado no início da década de 1960. Para ele, ao se considerar o desvio uma forma de atividade coletiva, a ser investigada, em todas as suas facetas, como qualquer outra atividade coletiva, vemos que o objeto de nosso estudo não é um ato isolado cuja srcem devemos descobrir. Em vez disso, o ato que alegadamente ocorreu, quando ocorreu, tem lugar numa rede complexa de atos envolvendo outros, e assume parte dessa complexidade  por causa da maneira como diferentes pessoas e grupos o definem (Becker, 2008, p. 189). Em uma linha interacionista, sua clássica obra tem sido inspiração metodológica,  particularmente suas conversas informais em meio à dinâmica da vida social dos “  jazzman   fumetas” (músicos de casa noturna usuários da maconha). Diante da tarefa de levantamento de dados, era absolutamente necessário um elevado grau de informalidade e empatia para se comunicar com sujeitos que mantinham modos de vida desviantes. Foi um aspecto tão crucial quanto a sistematização e categorização dos dados, pois houve um ganho na abertura e acesso para ingressar em diversos tipos e maneiras de conversações, observando como sujeitos empreendem ações que mantêm cenários de interação particularmente interessantes para os mesmos. Basicamente, neste trabalho, a noção de interação é apropriada a partir do conceito de Goffman (2011): é a classe de eventos que ocorre durante a copresença e por causa da copresença. Os materiais comportamentais definitivos são as olhadelas, gestos,  posicionamentos e enunciados verbais que as pessoas continuamente inserem na situação, intencionalmente ou não. Eles são os sinais externos de orientação e envolvimento  –   estados mentais e corporais que não costumam ser examinados em relação à sua organização social (p. 9). Feito esta consideração, conceitos como condutas de risco, encontros e reuniões informais,  bem como escolhas de desvio visam sistematizar os aspectos complexos envolvidos no comportamento e nas práticas de sociabilidade underground  . É necessário abordar sentimentos que o próprio sujeito tem dificuldades para lidar. Trabalhamos com aspectos da atividade social que o adolescente também  procura ocultar, como é o caso dos cortes e, em menor grau, do uso de drogas, embora não o do abuso de álcool e de cigarros. As tensões a que estas práticas tentam aliviar e dissipar  –   práticas que acabam integrando o senso do estilo de vida  –   diante da ameaça de instauração de um quadro de ansiedade, são encaradas de modo interligado a contextos sociais, decisivos para as escolhas, atividades e  5 envolvimentos dos sujeitos com o mundo exterior e com sua autoidentidade. Imediatamente, acrescentamos que o sujeito é considerado um agente criativo, capaz de deslocar-se e de reagir diante das condições materiais, interpessoais e culturais que o cerca. Isso pode variar positiva ou negativamente, em uma escala gradativa bastante ampla, e m que pode ou não prevalecer “rotinas autodestrutivas”.  Mantendo-nos nesta perspectiva analítica, vemos que o jovem ou adolescente não é visto tragicamente como um indivíduo frágil pelo fato de aderir a uma subcultura (influenciável) ou por adotar práticas autodestrutivas, como a compulsividade por álcool ou mesmo por automutilação. Ser diferente pode exigir coragem e enfrentamento, inclusive para evitar ou substituir a possibilidade de tentar suicídio pelo uso do corte como um mecanismo de aliviar estresse e ansiedade. Neste sentido,  parece-nos plausível a seguinte colocação de Giddens (2002): um envolvimento criativo com os outros e com o mundo-objeto é quase certamente um componente fundamental da satisfação psicológica e da descoberta de um “sentido moral”. Não precisamos recorrer a uma antropologia misteriosa para vermos que a experiência da criatividade como  fenômeno rotineiro é um apoio básico do sentido de dignidade pessoal e portanto de saúde  psicológica. Onde os indivíduos não podem viver criativamente, seja por causa da repetição compulsiva das rotinas, seja porque foram incapazes de atribuir  plena “solidez” a pessoas e objetos à sua volta, provavelmente resultarão tendências melancólicas ou esquizofrênicas crônicas (p. 44). As conversas e depoimentos aqui citados representam a síntese de diversos outros tipos de materiais colhidos em ambientes de interação de adolescentes que se consideram undergrounds ou simpatizam com estes grupos, o que levou mais ou menos dois anos (2011 e 2012). A imensa maioria deles era composta por menores de 18 anos, da periferia de Fortaleza, deslocando-se todos os fins de semana para os locais considerados  points , nas áreas mais valorizadas da Cidade. Suas atividades variam entre namoro homossexual, beijos em grupo de três ou mais pessoas, abuso de álcool e de drogas ilícitas, vestimentas extravagantes, cigarros etc. A discussão a seguir reune elementos que acopla a autolesão a contextos práticos de experiências de vida. 3. AMBIVALÊNCIA E CRISE DO SELF   NO CENÁRIO JOVEM UNDERGROUND    Uma das grandes batalhas travadas na contemporaneidade é a batalha do indivíduo com seu  próprio eu, sua autoimagem e sua autoestima. Colocando o  self na ordem social moderna, para Giddens: a falta de sentido pessoal  –   a sensação de que a vida não tem nada a oferecer  –   torna-se um problema psíquico fundamental na modernidade tardia. Devemos entender esse fenômeno em termos de uma repressão de questões morais que a vida cotidiana coloca, mas às quais nega respostas. “Isolamento existencial” não é tanto uma separação do indivíduo dos outros, mas uma separação dos recursos morais necessários para viver uma existência plena e satisfatória (2002, p. 16). É crucial o fato de aflições, medo, angústia, sensação de perda ou de impotência torne-se aspectos da vida moderna contemporânea, particularmente crítico para os indivíduos mais jovens que
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