O Traçado Urbanístico Regular e a Utopia da Cidade-Comunidade Tripartida de Hipodamo de Mileto

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O Traçado Urbanístico Regular e a Utopia da Cidade-Comunidade Tripartida de Hipodamo de Mileto
   3  O Traçado Urbanístico Regular e a Utopia da Cidade-Comunidade Tripartida, de Hipodamo de Mileto Embora a mais recente pesquisa sobre Hipodamo de Mileto  (Séc. V a.C.) 1  tenha posto em causa muito daquilo que lhe era atribuído, designadamente a sua classifica-ção como inventor do traçado regular das cidades – que, na realidade, remonta a 1  Sobre Hipódamo de Mileto , ver: Erdmann, M., «Hippodamos von Milet und die symmetrische Städtbaukunst der Griechen», in Philologus  42, 1882, p. 193-227; Cultrera, G., «Architettura ippoda-mea: Contributo alla storia dell’edilizia nell’antichità», in  Memorie della Reale Accademia del Lincei, classe di scienze morali, storiche e filologiche , 5.ª sér., vol. 17, 1923, p. 357-603; Castagnoli, F.,  Ippodamo di Mileto e l’urbanistica a pianta ortogonale , Roma, 1956 (ed. em inglês, actualizada, Orthogonal Town Planning in Antiquity , transl. by V. Caliandro, Camb./Mass., 1971); Martin, R.,  L’urbanisme dans la Grèce ancienne , Paris, 2e éd. augm. 1974; Ward-Perkins, J. B.,  Cities of Ancient Greece and Italy: Planning in Classical Antiquity , New York, 1974; Asheri, D., «Osservazioni sulle srcini dell’urbanistica ippodamea», in  Rivista Storica Italiana  87, 1975, p. 5-16; Burns, A., «Hippo-damos and the Planned City», in  Historia  25, 1976, p. 414-28; Falciai, P. B.,  Ippodamo di Mileto, architetto e filosofo: una ricostruzione filologica della personalità , Firenze, 1982; Greco, E., «Prassi urbanistica e teoria nel V e IV secolo a.C.: il pensiero utopistico da Ippodamo ad Aristotle», in Greco, E, Torelli, M., Storia del urbanistica. Il mondo greco , Roma-Bari, 1983, p. 233-46; García y Bellido, A., Urbanistica de las grandes ciudades del Mundo Antiguo , Madrid, 2.ª ed. 1985, p. 53-68; Cervera Vera,   L.,    Los   conceptos   asimilados    por     Hipódamo   de    Mileto    para   su   ciudad    ideal ,   Madrid,   1987;   Gehr-ke,   H.-J.,   «Bemerkungen   zu   Hippodamos   von   Milet»,   in   Hoepfner,   W.,   und   Schwander,   E.   L.   (hrsg.),    Demokratie   und     Architektur.    Der    hippodamische Städtbau und die Entstehung der Demokratie , Mün-chen,   1989,   p.   58-68;   Rodrigo,   P.,   «Mystique   du   nombre et rationalité chez Hippodamos de Milet», in   Thivel,   A.   (éd.),    Le   miracle   grec.    Actes   du    IIe   Colloque sur la pensée antique, organisé par le Centre de recherche sur l’histoire des idées les 18, 19 et 20 mai 1989 à la Faculté des Lettres de Nice , Nice, 1989, p. 153-67; Gorman,   V.   B.,   «Aristotle’s Hippodamos ( Politics  2.1267b22-30)», in  Historia  44, 1995, p. 385-95; Gorman, V. B.,  Miletos, the Ornament of Ionia: A History of the City to 400 BCE  , Michigan, 2001; Cursaru, G., «Hippodamos de Milet: Évolution ou révolution des strutures spatiales urbaines?», in Studia Humaniora Tartuensia , vol. 7.A.3, 2006, p. 1-12; Gruet, B., «Retour sur Hippo-damos de Milet. À propos d’un mythe moderne», in  Histoire urbaine  2008/1, n.º 21, p. 87-110.   4tempos muito remotos e muito anteriores a Hipódamo 2 , mesmo no seio da Grécia, já se fazendo observar nas suas colónias desde os Sécs. IX a VI a.C. 3  –, a verdade é que também pouco acrescentou de positivo para o conhecimento da personagem e da obra que lhe é atribuída. Nomeadamente, sobre   a   conexão   entre   as   suas   ideias   de   reor-ganização   política   da   cidade-comunidade,   a πόλις , e   as   ideias   sobre   o   ordenamento   urbanístico   e   arquitectónico   da   cidade,   entendida   como αστυ ,   ou   seja,   como   estrutura   espacial,   ou   construção   composta   de   ruas,   praças,   casas,   edifícios   públicos,   etc..   –   Será   sobre   essa   conexão,   e   na   perspectiva   do   seu   eventual   interesse   para   a determinação das srcens da Teoria da Arquitectura, que este capítulo se irá debruçar. De resto, de Hipódamo, pouco se sabe, quase nada tendo sobrado do que, eventual-mente,   tenha   escrito 4 , tendo assim de se recorrer a fontes indirectas para a apreensão das   suas   ideias.   E   a   mais   importante,   quase exclusiva 5 , dessas fontes é, precisamente, Aristóteles, que expõe as suas ideias, interpretando-as criticamente, para as refutar 6 , embora   aprove,   em   parte,   as   referentes   ao   traçado   das   cidades,   ou   disposição   ( διάθεσις ) 2  Ver, García y Bellido, ob. cit.  (1985), p. 13, 15, 29, 53-55. 3  Idem, García y Bellido, ob. cit.  (1985), p. 53-58. 4  Estobeu, autor bizantino do Séc. V d.C., numa obra de compilação da cultura antiga, Florilegium , refere-se a Hipódamo, como pitagórico e autor duma obra intitulada: Ιπποδάµου   Πυθαγορείου   εκ    τοΰ   Περί   πολιτείας , da qual apresenta quatro fragmentos (éd. Hense: IV, 1, 93-95 e IV, 34, 71). Na mesma obra (IV, 39, 26) há notícia de um Hipódamo de Thourioi, autor de Περί   εϋδαιµονίας , que será obra de um Hipódamo pitagórico tardio. Os quatros fragmentos de Περί   πολιτείας  não se confirmam hipodâ-micos, e além disso a obra de Estobeu, no seu conjunto, é tida como apócrifa, escrita dois a três sécu-los mais tarde, pelo que pouco adianta, como fonte fiável, para o conhecimento de Hipódamo. – Ver, Cursaru, «ob. cit.» (2006), p. 2, nota 7. 5  Além de Aristóteles, Hipódamo é referido como arquitecto ( αρχιτέκτονος ) por Harpocration (=39.3 D.K.), e como metereólogo ( µετεωρολόγος ) por Photius (=39.3 D.K.). – Ver, Cursaru, «ob. cit.», p. 1, nota 2. 6  Aristóteles, Política , II (B), 8, 1267b,22-41, 1268a,1-41, 1268b,1-41, 1269a,1-28, ed. bilíngue, trad. e notas de A. C. Amaral e C. de Carvalho Gomes; índices de conceitos e nomes de M. Silvestre; nota   prévia   de   J.   B.   da   Câmara;   pref.   e   revis.   literária   de   R.   M.   R.   Fernandes; introd. e revis. científica de M. C. Henriques, Lisboa, 1998. – Foi esta a edição utilizada confrontando-a com a francesa, bilíngue, Aristote, Politique , texte établi et trad. par J. Aubonnet, Paris, 1960-1989, tirages de 2002, 5 vols..   5 das   casas    particulares 7 .   Além   das   referências   do   Estagirita,   que   o   confirmam,   pensa-se que seria natural de Mileto, cidade-colónia dos gregos situada nas costas da Ásia Menor, arrasada pelos persas em 494 a.C., e reconstruída, entre 479 e 466 a.C. se-gundo um plano ortogonal (Figs. 91, 92), que poderá ter sido traçado por Hipodamo, ou onde ele terá tido intervenção e a sua formação como urbanista. Formação essa que terá transportado para Turios – outra colónia grega, ateniense, fundada no tempo de Péricles,   e   cujo   plano   urbanístico   será da autoria de Hipodamo. – Também se pen-sa, o que aliás é referido por Aristóteles, ter sido ele que delineou o plano de recons-trução do Pireu 8  (Fig. 93), cidade portuária de Atenas, arrasada pelos persas durante as guerras com os gregos e, depois, a esta ligada com uma estrada envolvida por mu-ralhas, ficando o seu nome registado numa das praças deste porto, a praça hipodâmi-ca, precisamente 9 . – Mas veja-se o que começa por relatar Aristóteles: Foi    Hipodamo,   cidadão   de    Mileto,   e    filho   de   Eurifonte,   quem inventou a divisão ( διαίρεσιν )  das cidades e delineou  ( κατέτεµεν )  as ruas do Pireu 10 . – Sublinhado nosso.   A passagem que se sublinhou é a que tem sido mais extensamente comentada pela mais recente pesquisa sobre Hipodámo. Na tradução portuguesa, inventou o traçado das   cidades e delineou as ruas do Pireu , o significado é nitído e está de acordo com a tradicional interpretação de Hipódamo: teria sido ele que inventara o traçado regular e ortogonal das cidades, e o aplicara no Pireu. Mas a moderna pesquisa tende a inter-pretar a expressão srcinal, πόλεων   διαίρεσιν , como a divisão das cidades  (razão pela qual assim se transcreveu neste artigo) no sentido político e não urbanístico, referindo-se   à   divisão   da cidade em três classes sociais distintas, logo, expressando-se 7  Aristóteles, Política , VII (H), 11, 1330b,21-24 (1998), p. 523. 8  Aristóteles, ob. cit. , II (B), 8, 1267b,17-18. 9  A   Praça   Hipodâmica   ( Ιπποδάµεια   αγορά )   é   referida   em    Anecdota   Graeca   (Bekker;   cf.   39   1-5   D.K.,   I,   389-91)   e   em   Xenofonte,    Hell .   II,   4,   11.   –   Ver,   Cursaru,   «ob.   cit.»   (2006),   p.   1, n.   2, e Castagnoli, ob. cit.  (1974), p. 66. – Para uma descrição da Praça Hipodâmica, e da topografia urbana do Pireu, em geral, ver: Panagos, Ch. Th.,  Le Pirée. Étude économique et historique depuis les temps les plus anciennes  jusqu’a la fin de l’empire romain , avec une étude topografique, thèse de doctorat, trad. de P. Gerardat, préf. d’A. Mirambel, Athènes, 1968, p. 159-247, em especial, para a Praça Hipodâmica, p. 223-26. 10  Aristóteles, ob. cit. , II (B), 8, 1267b,22-23 (1998), p. 141.   6na mesma frase duas realidades diferenciadas: a divisão das cidades, enquanto enti-dades políticas, e o delineamento, ou divisão , das ruas do Pireu, acção que se pode, metaforicamente, considerar como de pendor urbanístico. Para a pesquisa mais recente é claro que por divisão das cidades  se deve entender uma referência ao sistema político, proposto por Hipódamo, de divisão, distinção ou repartição da cidade-comunidade em três classes ou estados distintos: artesãos, agri-cultores e combatentes armados , tal como os nomeia Aristóteles, e não a referência à divisão ou traçado no sentido urbanístico, referida à cidade como estrutura espacial, o que os gregos designavam de αστυ 11 , designando de πόλις  a cidade entendida como comunidade política, essencialmente, como aliás o denota a palavra πολιτικοΰ , em cujo étimo está a palavra πόλις , tal como se encontra αστυ  na raíz da palavra αστυνοµίαν , que Aristóteles nomeia, como designando os magistrados incumbidos do ordenamento urbano 12 , e cujas funções mediariam entre as que, actualmente, são atribuídas   aos arquitectos e engenheiros municipais, e as dos fiscais de obras, visando essencialmente a disciplina das construções e a desobstrução da via pública. Assim, e tomando como exemplo, as interpretações de Brice Gruet 13 , as passagens em questão, de Aristóteles, deveriam ter, em francês, as versões seguintes:  Livre II, 1267b, 1: «Hippodamos, celui qui a mis au point une maniére particulière de diviser la cité et a par ailleurs procédé au découpage complet du Pirée […].»    Livre VII, 1330b, 22-23: «Quant à la disposition des habitations, on estime qu’elle est plus agréable et plus adaptée à des activités variées si elle obéit à un bon découpage [i.e. qui n’entrave pas les déplacements], selon la maniére plus récente, celle d’Hippodamos.»   Ora não discordando deste apuramento filológico, e do diferente sentido que dá à personagem   e   à   obra   de   Hipódamo,   observa-se   todavia   que   tudo   isto   é   pouco   relevante 11  Ver, Isidro Pereira, S.J.,  Dicionário de Grego-Português e Português-Grego , voz “ Αστυ ”, Braga, 7.ª ed. 1990, p. 88: Αστυ , εως , s. n. || cidade || Atenas, a cidade por ontonomásia . 12  Aristóteles, ob. cit. , VII (H), 12, 1331b,10 (1998), p. 527. 13  Gruet, «ob. cit.» (2008), p. 107.   7para a Teoria da Arquitectura. Em Hipódamo de Mileto, ou melhor, na notícia que dele nos dá Aristóteles, que é esse o material do presente estudo, o que tem relevo é a conexão, que aí se evidencia, entre o modelo ou projecto de ordenamento da cidade, como comunidade social e política, e uma certa disposição da cidade, enquanto estru-tura espacial. – Assim, e voltando a Aristóteles:  Adoptou  [Hipódamo]  um estilo de vida deveras srcinal, a ponto de alguns considerarem que vivia de modo afectado, devido à sua farta cabeleira e ricos adornos, além das suas   roupas   simples   mas   quentes,   que   usava   não   só   no    Inverno   como   no   Verão,   querendo   ser    considerado um especialista em todas as coisas da natureza 14 . Esta passagem, que poderá parecer superficial, assim como uma mera concessão de Aristóteles ao anedotário, ou como uma primeira demarcação do sistema político que Hipódamo propõe, assim, tão bizarro quanto o autor, pode também ser interpretada como   descrevendo,   na   verdade,   uma   imagem   real   de   Hipódamo,   marcando   com   altivez e   afectada   diferenciação   a   sua   condição   de   especialista   em   todas   as   coisas   da   natureza  e, além disso, a de inventor, que  foi o primeiro, entre os que não eram políticos, a tentar    dizer    algo   sobre   o   melhor    regime .   – Note-se, todavia, que o seu singular aspecto, tem similitudes com o do arquitecto Dinócrates (que mais do que bizarramente vestido   se   apresentava   singularmente   despido),   da   saborosa   história   narrada   por   Vitrúvio, e, de certo modo, tem a ver com uma imagem de singularidade no traje e na apresentação que tem sido peculiar aos arquitectos, ao longo da história, e que se acentuou na Modernidade, talvez apenas com o propósito de épater le bourgeois , ou para impôr uma imagem de diferença, logo de modernidade , também neste aspecto. – Se mais “razões” não houvessem para classificar Hipódamo como arquitecto, esta abonaria a seu favor. – Mas vejamos aquilo de que há mais certas e seguras notícias, e que se referem ao seu projecto de melhor regime , seguindo Aristóteles: Foi   o    primeiro,   entre   os   que não eram políticos, a tentar dizer algo sobre o melhor regime.   Começou    por     projectar    uma cidade   com   dez   mil   habitantes,   dividida   em   três   classes:   uma   de   artesãos,   outra   de   agricultores,   e   uma   terceira   de   combatentes armados.   Propôs   também 14  Aristóteles, ob. cit. , II (B), 8, 1267b,23-30 (1998), p. 141-143.
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