O avesso e o direito da escritura: a relação entre literatura e filosofia em L'étranger e Le Mythe de Sisyphe

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O avesso e o direito da escritura: a relação entre literatura e filosofia em L'étranger e Le Mythe de Sisyphe
  © Revista Moara ISSN 0104-0944 (Impresso), n.37, jan.-jun., Estudos Literários, 2012. Programa de Pós-Graduação em Letras / Universidade Federal do Pará. Todos os direitos reservados.   O avesso e o direito da escritura: a relação entre literatura e filosofia em  L’étranger  e  Le mythe de Sisyphe de Albert Camus   The wrong side and the right side of the writing: the relationship between literature and  philosophy in Albert Camus’ L’Étranger and Le Mythe de Sisyphe Samara Fernanda Almeida Oliveira de Lócio e Silva GESKE ∗  Universidade de São Paulo (USP) RESUMO :  L’Étranger   e o ensaio filosófico  Le Mythe de Sisyphe  compõem o que Camus chamou de ciclo do absurdo. A narrativa, desde sua publicação, sempre foi lida pela crítica em relação ao ensaio e muitas vezes considerada como a tradução literária do tema filosófico. Partimos da questão sobre quais seriam realmente as implicações da relação entre filosofia e literatura para a narrativa, seria a filosofia uma etiqueta sobre a obra ou ela poderia estar mais profundamente imbricada no processo de criação? PALAVRAS-CHAVE:  L’Étranger  .  Le Mythe de Sisyphe . Absurdo. Filosofia. Literatura. RÉSUMÉ:  L'Etranger   et l'essai philosophique  Le Mythe de Sisyphe  composent ce que Camus a appellé cycle de l’absurde. Le récit, depuis sa publication, a été toujours lu par la critique par rapport à l’essai et souvent considéré comme la traduction littéraire du thème philosophique. On se demande dans cet article sur les implications de la relation entre philosophie et littérature pour le récit : la philosophie serait une étiquette sur l’oeuvre ou elle serait plus profondément ancré dans le processus de création?  MOTS-CLÉS:  L’Étranger  .  Le Mythe de Sisyphe . Absurde. Philosophie. Littérature. Introdução: Em torno do ciclo do absurdo  L’Étranger   é publicado na França em maio de 1942 e  Le Mythe de Sisyphe: essai sur l’absurde  aparece em outubro do mesmo ano. 1  O desejo de Albert Camus era que essas duas obras fossem publicadas simultaneamente, mas isso não foi possível: na França ocupada pelos alemães, conseguir papel para a impressão era muito difícil. Essa publicação concomitante foi primariamente sugerida por André Malraux, que ao ler os dois textos ainda em estado de manuscrito escreve para Camus (outubro de 1941), observando que a aproximação entre Sisyphe  e  L’Étranger tinha mais consequências do que ele poderia supor: o ensaio, afirma ele, dá ao livro seu sentido pleno e, sobretudo, transforma o que no romance parecia monocromático e quase pobre (TODD, 2006, p. 384). Camus lhe responde que é exatamente esse o seu procedimento: a ideia de que uma obra pode esclarecer a outra (TODD, 2006, p. 385). Justamente em  Le Mythe de Sisyphe , ele aprofunda essa concepção de que a criação de um homem é única e se consolida a partir da ∗  Mestre em Letras, Doutoranda em Literatura Francesa, Departamento de Letras Modernas, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo. E-mail: samaralocio@gmail.com. 1  As reflexões deste artigo fazem parte da dissertação intitulada “O avesso e o direito da escritura camusiana: de  L’Étranger   aos Écrits de Jeunesse ” defendida na Universidade de São Paulo em 02 de setembro de 2011.  S. GESKE / O avesso e o direito da escritura   Revista MOARA n.37, p.134-145, jan./jun., 2012, Estudos Literários 135   apresentação sucessiva e múltipla que são as suas obras: umas completam as outras, corrigem-nas ou as recuperam. (CAMUS, 2008b, p. 155). Essa “criação única” camusiana é o absurdo, que pode ser definido de maneira ampla como um divórcio entre o homem e o mundo, permeado pelo estranhamento entre ambos. 2  Essa relação foi logo percebida pela crítica. Em 1943 3 , a narrativa recebe uma de suas primeiras críticas, trata-se de “Explication de  L’Étranger  ” de Jean-Paul Sartre: “Mal saído da tipografia, O Estrangeiro  de Camus conheceu enorme êxito [...] Em O mito de Sísifo , publicado alguns meses mais tarde, Camus nos deu o comentário exato de sua obra.” (SARTRE, 2005, p. 117). Nesse texto, a análise de  L’Étranger   é sempre pautada por  Le Mythe de Sisyphe , pois, para o crítico, o ensaio nos mostraria a maneira de interpretar o romance (SARTRE, 2005, p. 121). Enquanto o primeiro nos inspiraria o sentimento do absurdo, o segundo nos ofereceria a sua noção (SARTRE, 2005, p. 124). Se essa relação fica evidente no processo de leitura, o processo de criação desses textos também tem muito a nos dizer: ensaio e narrativa conviveram juntos por alguns anos sobre a mesa de trabalho e na mente do escritor. Podemos seguir esse processo de escrita principalmente através de notas e cartas que Camus escreve relatando o andamento de seu trabalho. Em fevereiro de 1939, escrevendo à sua futura mulher Francine, ele relata que havia começado no dia anterior o seu trabalho: “Como eu tinha te dito (e eu tinha me dito) que começaria por meu romance, foi o meu ensaio sobre o Absurdo que eu iniciei.” 4  (TODD, 2006, p. 282, tradução nossa) E explica que isso se deu pelo fato de que a ideia do ensaio estava bem mais amadurecida nele do que a do romance. Nesses anos, os testemunhos acerca de seu trabalho são múltiplos: ele escreve a Jean Grenier que trabalha em seu ensaio sobre o Absurdo (CAMUS, 2006, p. 1270) e relata a uma amiga, Christiane Galindo, que começara a escrever o seu romance. (CAMUS, 2006, p. 1244). Em maio de 1940, ele escreve nos Carnets  que  L’Étranger   está terminado (CAMUS, 1962, p. 215). Em setembro desse ano, ele termina a primeira parte do ensaio (CAMUS, 1962, p. 216). E em fevereiro de 1941, finalmente termina o  Mythe : “Terminado Sísifo. Os três Absurdos 5  estão acabados. Início da liberdade.” (CAMUS, 1962, p. 224, tradução nossa) 6   2  “Un monde qu’on peut expliquer meme avec de mauvaises raisons est un monde familier. Mais au contraire, dans un univers soudain privé d’illusions et de lumières, l’homme se sent un étranger. Cet exil est sans recours puisqu’il est privé des souvenirs d’une patrie perdue ou de l’espoir d’une terre promise. Ce divorce entre l’homme de sa vie, l’acteur de son décor, c’est proprement le sentiment de l’absurdité.” (CAMUS, 2008b, p. 20) 3 É importante ressaltar que na época em que o artigo foi escrito, setembro de 1942,  Le Mythe  ainda não havia sido publicado: Sartre o havia lido ainda sob o estado das provas finais da editora Gallimard e ficara impressionado ( TODD, 2006).   4 “Hier j’ai commencé vraiment mon travail. Comme je t’avais dit (et je m’étais dit) que je commencerais par mon roman, c’est mon essai sur l’Absurde que j’ai entamé. D’ailleurs il est beaucoup plus mûr en moi que le roman […]”(TODD, 2006, p. 282)   5  L’Étranger  ,  Le Mythe de Sisyphe ,  Le Malentendu  e Caligula , respectivamente, narrativa, ensaio e peças teatrais. Ressaltamos que não discutiremos a relação dos dois primeiros com as peças, pois não é nosso objetivo analisar neste trabalho o teatro camusiano. Para introduzir o assunto recomendamos o artigo “De Caligula  aux  Justes : de l’absurde à la justice”, de André Alter (In: LÉVI-VALENSI, 1970, p. 18-28). E o livro  Les Envers d’un échec : étude sur le théâtre d’Albert Camus,de Raymond Gay-Croisier. Paris: Minard, 1967. 6  “Terminé Sisyphe. Les trois Absurdes sont achevés. Commencements de la liberté.”(CAMUS, 1962, p. 224)  S. GESKE / O avesso e o direito da escritura   Revista MOARA n.37, p.134-145, jan./jun., 2012, Estudos Literários 136   Dessa forma, observamos que não somente ensaio e narrativa foram concebidos praticamente de maneira concomitante e estabeleciam entre si uma relação, mas que formavam um ciclo realmente planejado e projetado por Camus A palavra “absurdidade” 7  aparece nos Carnets  pela primeira vez em 1935 em meio a uma série de palavras que se relacionam entre si na forma de um esquema (CAMUS, 1962, p. 23). Em maio de 1936, ela reaparece mais particularizada: “Obra filosófica: a absurdidade. Obra literária: força, amor e morte sob o signo da conquista.” 8  (CAMUS, 1962, p. 40, tradução nossa) Aqui, a ideia de um ciclo começa a ser delineada a partir da divisão que Camus faz entre uma obra filosófica e uma obra literária que tratariam do mesmo tema: o absurdo. Em 1938, a ideia de ciclo é colocada em prática em uma longa nota. Ela inicia-se por uma questão: “Sobre o absurdo?” (CAMUS, 1962, p. 141), o que se segue é uma reflexão sobre a condenação à morte, juntamente com alguns fragmentos de narrativa que tratam de um condenado que aguarda sua execução. Em primeiro lugar, observamos uma reflexão sobre o tema (o aspecto mecânico da pena de morte e a lucidez do condenado) que servirá para a composição de  Le Mythe  e, em seguida, a tentativa de dar vida a ele através de uma narrativa (a angústia vivida pelo personagem ao aguardar que venham buscá-lo para ser morto) que servirá a  L’Étranger  . A concepção de conjunto foi muito utilizada para descrever as suas obras. Quando termina a redação de  L’Homme Révolté  , ele escreve: “Com esse livro acabam-se os dois primeiros ciclos. 37 anos. E agora, a criação pode ser livre?”. (CAMUS, 1965, p. 345, tradução nossa) 9  Esses dois ciclos se referem ao que ele chamou de ciclo do absurdo e ciclo da revolta, que se organizam a partir de sua relação com certos mitos 10 : o ciclo do absurdo que se relaciona ao mito de Sísifo e compõe das obras já citadas, o ciclo da revolta que se relaciona com o mito de Prometeu e se compõe de  La Peste ,  L’Homme Révolté   e  Les Justes . Há ainda um ciclo intermediário composto por  La Chute  e finalmente o ciclo do amor que se relaciona ao mito de Nêmesis (esse último não foi empreendido devido à morte prematura de Camus). 11  A escrita por ciclos era uma espécie de tarefa que ele se impunha, visto que todas as vezes que aborda essa questão deixa sempre transparecer seu desejo de escrever livremente, sem restrições de tema ou de forma. Essa tarefa, no entanto, tem relação com uma concepção própria de literatura que ele deseja sustentar: a relação profunda entre a escrita literária e a reflexão filosófica. Dessa forma, não haveria uma evolução na passagem de  L’Étranger   - publicado alguns meses antes - para  Le Mythe , como escreve Camus: Je ne suis nullement passé de l’oeuvre d’imagination à l’ouvrage de morale. Le thème qui m’interéssait avant la guerre, je l’ai traité sous trois formes différentes: l’essai avec  Le Mythe de Sisyphe , le roman avec  L’Étranger  , le théâtre avec  Le  Malentendu  et Caligula . [...] Loin qu’il ait évolution dans aucun cas il y a au 7  Neste trabalho a palavra absurdidade (qualidade, condição ou estado do que é absurdo) será empregada muitas vezes no lugar do termo absurdo. 8 Oeuvre philosophique: l’absurdité. Oeuvre littéraire: force amour et mort sous le signe de la conquête. (CAMUS, 1962, p. 40). 9 Avec ce livre s’achèvent les deux premiers cycles. 37 ans. Et maintenant, la création peut-elle être libre ?” (CAMUS, 1965, p. 345) 10 “I. Le Mythe de Sisyphe (absurde) – II. Le Mythe de Prométée (révolte) – III. Le Mythe de Némésis. ” (CAMUS, 1965, p. 328) 11 “Avant le troisième étage : nouvelles d'« un héros de notre temps ». Thème du  jugement et de l'exil. Le troisième étage, c'est l'amour : le Premier Homme, Don Faust. Le mythe de Némésis. La méthode est la sincérité.” (CAMUS, 1989, p. 187)    S. GESKE / O avesso e o direito da escritura   Revista MOARA n.37, p.134-145, jan./jun., 2012, Estudos Literários 137  contraire obstination à présenter dans de genres différents des visages particuliers d’une même oeuvre ou d’une même entreprise. (CAMUS, 1981, p. 1614) 12   Nos dois textos o absurdo se repete como um tema, mas em cada um ele é tratado de forma distinta. Como vimos, essa escrita, cujo eixo temático se apresentaria sob diferentes planos da criação, já estava prevista a partir de uma divisão entre uma obra filosófica e uma obra literária, e Camus conclui: “Nas duas, misturar os dois gêneros respeitando o tom particular.”(CAMUS, 1962, p. 40, tradução nossa). Assim, a questão que se coloca para todos aqueles que refletem sobre o pensamento camusiano é a seguinte: por que expressar a mesma coisa, mas de maneiras diferentes? 13  Pois para Camus é possível, e mesmo desejável, que haja uma mistura entre filosofia e literatura, mas guardando as características inerentes a cada gênero. Dessa forma,  Le Mythe  é necessário, pois mistura filosofia e literatura, mas respeitando o tom da filosofia, assim como  L’Étranger  , que mistura literatura e filosofia, mas respeita o tom da literatura. 14  Em  Le Mythe de Sisyphe , Camus afirma a arbitrariedade da antiga oposição entre filosofia e literatura. Para o escritor, a única argumentação válida para afirmar essa oposição está na contradição entre o filósofo encerrado no meio  do seu sistema e o artista colocado diante  de sua obra. Por oposição ao artista, o filósofo jamais criou vários sistemas, mas isso é verdade também na medida em que nenhum artista expressou mais que uma única coisa sob diversas facetas (CAMUS,, 2008, p. 133). Dessa forma, Camus aproxima o criador do filósofo. Finalmente, ele conclui que é inútil discutir as distinções de método e de objeto se estamos convencidos da unidade das metas do espírito: “Não há fronteiras entre as disciplinas que o homem emprega para compreender e para amar. Elas se interpenetram e a mesma angústia as confunde.” (CAMUS, 2008, p. 112). 15   1 A evidência e o lirismo: os ensaios No entanto, ao longo da história, filosofia e literatura foram consideradas como duas formas de atividade distintas. Segundo Philippe Sabot (2002), filosofia e literatura não se utilizam dos mesmos instrumentos e não buscam um mesmo fim. Enquanto o texto filosófico tira valor de sua pertinência conceitual e de uma argumentação coerente e sistematizada, o texto literário recebe seu valor de sua unidade de estilo e da qualidade de 12 “Eu não passei de modo nenhum da obra de imaginação para a obra de moral. O tema que me interessava antes da guerra, eu o abordei sob três formas diferentes: o ensaio com  Le Mythe de Sisyphe , o romance com  L’Étranger  , o teatro com  Le Malentendu  e Caligula . [...] Ao contrário de haver uma evolução, há sim uma obstinação em apresentar, através de diferentes gêneros, as facetas particulares de uma mesma obra ou de uma mesma empresa.” (CAMUS, 1981, p. 1614, tradução nossa)   13  Aqui nos reportamos a discussão de Franklin Leopoldo e Silva (2004, p. 73) sobre a relação entre filosofia e literatura nos escritos sartrianos: “[...] a expressão filosófica e a expressão literária são ambas necessárias em Sartre porque, por meio delas, o autor diz e não diz  as mesmas coisas. Parece óbvio afirmar que Sartre diz a mesma coisa quando faz filosofia e quando faz literatura, mas isso deixa ainda intacta a questão de  por que  ele o diz de duas maneiras diferentes”.   14 Sobre essa questão ver a abordagem de Souza (2008, p. 73) a respeito da relação entre filosofia e literatura em Sartre: “Não podemos estabelecer uma superioridade da filosofia em relação a literatura e nem desta em relação àquela: o que temos é uma interdependência entre elas, baseada na insuficiência de cada uma (enquanto a prosa retrata sem conceitualizar, a filosofia conceitualiza sem retratar).”. 15 “Il n’y a pas de frontières entre les disciplines que l’homme se propose pour comprendre et aimer. Elles s’interpénètrent et la même angoisse les confond.” (CAMUS, 2008, p. 133)  S. GESKE / O avesso e o direito da escritura   Revista MOARA n.37, p.134-145, jan./jun., 2012, Estudos Literários 138   sua escritura. Por isso, não se espera que o texto literário forneça a seu leitor uma filosofia, nem que os filósofos se preocupem com a beleza de seus raciocínios. Segundo Campion (1996, p. 10), porém, os Pensées  de Pascal se configuram como uma das raras obras em que as duas disciplinas se misturam, erguendo um protesto contra a separação histórica entre filosofia e literatura. É exatamente nessa tradição que Camus se insere. Em seu livro  Albert Camus: um elogio do ensaio , Costa Pinto mostrará que o escritor insere-se na linhagem de ensaístas franceses como Montaigne, Pascal e La Rochefoucauld, ao explorar o ensaio como um gênero que está no limite entre a reflexão filosófica e a invenção literária. Essa concepção de mistura entre os gêneros já havia sido explorada nos ensaios de  L’Envers et L’Endroit  ,   publicado em 1937. 16  Neles, Camus marca que filosofia e literatura podem se interpenetrar. 17  Por exemplo, no ensaio “L’Envers et L’Endroit” o narrador conta a história de uma velha senhora que recebera uma pequena herança. Ela aplicara todo o dinheiro na compra de um túmulo para si mesma, o qual visitava todos os domingos. No final, o narrador insere uma reflexão no texto: “A grande coragem é ainda a de ter os olhos abertos tanto para a luz como para a morte.” (CAMUS, 19- ?, p. 110). 18  Aqui, narrativa e reflexão se conjugam para nos ensinar que a morte é uma certeza e que é preciso conservar a lucidez até o fim. Para Costa Pinto, em sua estrutura ao mesmo tempo ensaística e narrativa, os textos de O Avesso e o Direito  antecipam assim o dispositivo estilístico que determinará tanto a ficção de Camus quanto seus ensaios: todas as ações (das personagens) ou as reflexões (do moralista) tornam à condição do homem frente ao imobilismo indiferente do mundo. (1996, p. 166) Os ensaios de  L’Envers et L’Endroit   são, porém, muito mais literários que reflexivos. Essa inclinação é possível porque o ensaio não é um gênero definido, mas um gênero de intervalo, de passagem (PINTO, 1996, p. 89). Em  Le Mythe de Sisyphe , Camus (2008b) se utilizará do ensaio, mas dessa vez com maior inclinação para reflexão filosófica. Essa forma serviu precisamente a ele que nunca se considerou como um filósofo, ou seja, que jamais poderia utilizar a forma do tratado. Interrogado sobre sua relação com o existencialismo 19 , Camus responde: 16 É muito provável que essa compreensão tenha se dado muito cedo no escritor, uma vez que a estrutura literatura/filosofia já havia aparecido em seus primeiros escritos. Em “Devant la morte” e “Perte de l’être aimé”, textos de 1933, Camus escreve sobre o mesmo tema: a morte do ser amado. O primeiro aparece na forma de uma narração e explora principalmente o tema da comédia social ligada ao rito funerário. O segundo aparece em forma de uma reflexão sobre essa perda e sobre a dor. 17  Remetemos o leitor para duas interessantes análises de  L’Envers et L’Endroit  . Para um aprofundamento da relação entre as passagens narrativas e reflexivas nos ensaios recomendamos o capítulo “Entre l’essai et le récit” de Lévi-Valensi (2006) e o artigo “L’Ironie ‘tapie au fond des choses’ou l’inextricable texture de  L’Envers et L’Endroit  ”, de Françoise Armengaud (1997), para pensar a relação profunda entre filosofia e literatura nos ensaios. 18 “Le grand courage, c’est encore de tenir les yeux ouverts sur la lumière comme sur la mort.” (CAMUS, 2007, p.119)   19 A questão é a seguinte: “Ce qui frappe les lecteurs des chroniques qui vous sont consacrés, c’est de trouver souvent votre nom associé à celui de Jean-Paul Sartre, comme si vous étiez un disciple du philosophe existencialiste. Or  L’Étranger   est bien loin des contes sartriens; de meme le  Mythe de Sisyphe  où vous critiquez…”
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