Monumentalidade e Representações do Poder de uma Pólis Colonial

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Monumentalidade e Representações do Poder de uma Pólis Colonial
  Monumentalidade e Representas: es do Poder de uma P lis Colonial   Elaine Farias Veloso Hirata   E M SOCIEDADES ANTIGAS E CONTEMPORANEAS AS REPRESENTA<;:6E ,S DO PODER SA O VE ICULADA S POR MEIO DE DIS-CURSOS E TAMBEM POR TODA UMA GAMA DE OB]ETOS MATERIAlS . o RECURSO MAT E RIALIDADE C OMO FORMA DE EXPRESSAO DE todo tipo de poder -politico, economico, religioso - e, hoje, uma das areas mais importantes de pesquisa da arqu eologia do Me dit erraneo antigo. Assim, a abor dagem tradicional que via nas grandes obras arquitetonicas apenas a srcinali dade e beleza da manifesta<;:ao artistica vem se ndo progressiva mente substitufda por analises que buscam 0 componente ideologico motivador dessas realiza<;:6es, que mobilizaram gastos excepcionais de recursos, energia, tempo. Essas novas tendencias resultam , em ultim a in stancia, do lange processo de reformula«;ao teorica por que vem passando a arqueologia des de os anos 1970. No conjunto de perspectivas interpretativas na analise da rela«;ao espa«;o-sociedade, alinham-se, hoje, os arque610gos de correntes pos-processualistas que identificam no chamado espa«;o construfdo   uma via de comuni c a«;ao entre grupos sociais hegemonicos ou poder es institucionalizados e os demais grupo s de indivfduos integrantes de uma sociedade. Pe a rson e Richards (1994) observam na forma e disposi«;ao das estruturas arquitetonicas na paisagem a manifesta«;ao visual da ideologia que da suport e a rela«;6es socia is assimetricas, dpicas de so ciedades rigidamente hierarquizadas . I Este artigo e um a ve rsao ampliada de uma omuni ~ o oral aprese nr ada no v Semimirio Inter- nac i ona l Archai - A Cida de Antiga: Catego ri lS Con cei tu ai < e RepreselJt afiies Sociais   em junh o de 20 0 8 na Uni ve rsidade Nacional de Brasilia. 2 Professora de Arque ol ogia Clissica do Museu de Arqueologia e Em ologia da Un iv ersidade de Sao Paulo. Pesquisadora principal do Labeca. 121  Assim, na esteira da busca do entendimento das intera<;6es entre espa<;o, sociedade, rela<;6es de poder, alguns autores, como 0 arqueologo B. Trigger (1990), defendem 0 pressuposto de que, nas constru<;6es monumentais, ou seja, naque- las que excedem tanto em escala quanto em qualidade de consttu<;ao as necessidades funcionais de urn edificio, atesta-se 0 chamado consumo conspicuo'; urn comportamento que integra as estrategias de afirma<;ao do poder em soc iedades estratificadas. 0 principal pressuposto que embasa essa interpreta<;ao e a constata<;ao de que nas sociedades humanas 0 controle de energia constitui a mais fundamental e universalmente reconhecida medida de controle de poder e dai decorre que 0 mais basico meio pelo qual 0 poder pode ser simbolicamente refor<;ado e atraves do 'con sumo conspicuo' de energia (Trigger, 1990, p. 128). Para Trigger, 0 consumo conspicuo amplia uma perspectiva materialista do comportamento humano ao incorporar varios aspectos significantes dos com ponentes ideacionais deste comportamento que aparecem no registro arqueo- logico idem, p. 132). Naturalmente, a arquitetura monumental e uma forma de alta visibilidade e durabilidade a comunicar esse tipo especifico de con sumo extraordinario associando-o a urn govern ante ou a uma cam ad a hegemonica detentora do poder. Sao edifica<;6es que testemunham como esses detentores do poder conseguem dispor de habilidosos artesaos, uma grande monta de recursos materiais e massivas quantidades de trabalho para realizar essas obras. principio do consumo conspicuo seria, pois, a contrapartida oposta a outro comportamento muito observado nas sociedades humanas, 0 principio do me nor esfor<;o'; ou seja, 0 recurso a urn gas to maior de energia no tempo curto para reduzir 0 dispendio da energia no tempo longo. A seguir buscaremos analisar a presen<;a de constru<;6es monumentais na Sicilia grega sob a otica proposta por Trigger, relacionando esses projetos constru- tivos aos objetivos propagandistico-ideologicos dos governos tirinicos de duas polis: Siracusa e Agrigento. Entendemos aqui 0 conceito ideologia como e definido por Knapp, ou seja, [ ... ] nao so uma reflexao epifenomenica sobre a base polltico-economica de uma sociedade mas como mais um meia pe/a qual grupas mantem, resistem au mudam ativamente seu pader relativa dentro da saciedade (Knapp, 1988, p. 132). Decorre dai que ideologia e poder estao em continua e in tima intera<;ao e para que os grupos hegemonicos continuem exercendo seu dominio sobre os demais a ideologia e reiterada por meio de estrategias e simbolos que usam suportes variados e, dentre eles, os materiais que podem ser acessados pela analise dos arqueologos. Para Knapp, certos artefatos, como as constru<;6es monumentais, enquanto correlatos materiais da ideologia, constituem vestigios tangiveis de urn aparato ideologico centralizado (Knapp, 1996, p. 16). Assim, na Sicilia, area onde os gregos fundaram polis a partir do seculo VIII a.C. constata-se, entre os seculos VI e V a.C., a introdu<;ao de projetos construtivos de escala monumental: os templos. Tais edificios, muito maiores do que os da Grecia Baldnica, estao localizados em areas dominadas, ao momenta da Elaine Farias Veloso Hirata 122  o 25 Acim de 5 m km Mapa da Sicilia construs:ao, por governos tiranicos, como e 0 caso de Siracusa e Agrigento fig. I). Desde 0 final do seculo XIX, esses sitios foram documentados por trabalhos arqueologicos e ainda hoje, sao estudados tanto com vistas ao conhecimento mais aprofundado da arquitetura antiga, quanto, sobretudo, com 0 intuito de melhor inseri-Ios no processo historico que se desenrolou na ilha. Ao lado dos dados oriundos das escavac;:6es, temos dentre as Fontes escritas especialmente Diodoro Siculo r a.c.) que, ao relatar episodios protagonizados pelos tiranos siceliotas, faz muitas referencias a seus projetos construtivos, fornecendo, em certos casos, descric;:6es detalhadas dos trabalhosl. A poesia lirica, especialmente os epinicios4, que eram as odes cantadas e danc;:adas por urn cora de homens ou meninos em honra de urn vitorioso nos Jogos Pan-helenicos, nos fornecem dados importantes sobre uma das principais formas utilizadas pelos tiranos para divulgar seus projetos politicos e promover 3. P. ex. Diodoro XI 25.2-5 a proposito da constru~ao pelo tirano Teran de Agrigento do Olimpieion e da Kolymbreta nesta polis. 4. Segundo Nagy 1990, p. 142), 0 termo grego epi-nikion, epinicio), significa, literal mente, alguma coisa como 0 que e em compens ~ o pela vitoria nike ) ; 0 epinicio era composto de grupos de tres estrofes triades) e tinha tam bern tres partes: 0 relato da vitoria, desenvolvimento mitico do assumo e por fim, 0 elogio do vencedor e exorta~ es morais. Monumentalidade e Representaroes do Poder de uma Polis Colonial 123  sua imagem: a participa«;:ao em tais competi«;:oes, que eram presenciadas e dis putadas por cidadaos de todo 0 mundo grego Hirata, 1996-1997, p. 61). Cons- tituem tambem uma estrategia de auto-representac;:ao dos tiranos que envolve sua aproxima«;:ao com a figura arquetipica do vencedor - heroi'; que traz presrigio a polis de srcem s• Sabe-se que os Jogos Pan-helenicos configuravam-se como espa«;:os de alta visibilidade onde os Estados integrantes da comunidade helenica -representados por seus arletas - competiam vigorosamente em bus- ca da gloria e da consagra«;:ao frente a uma audiencia de grande representatividade. Os tiranos da Sicilia usaram tais arenas como espa«;:os privilegiados para disputar a admira«;:ao, 0 respeito e conseguir a legitima«;:ao de seu poder frente a comunidade grega. A performance do epinfcio na polis, no momento do retorno do vitorioso significa tambem a incorporac;:ao, pela com un da de, da gloria do arleta que, ao se estender a todos, reafirmava os la«;:os entre ele e sua polis Mc Glew, 1993, p. 37). Em comemora«;:ao as suas vitorias, em geral conseguidas nas modalidades de maior prestigio, como a corrida de carros, os tiranos siceliotas, como Teron de Agrigento e Hieron de Siracusa 6 comissionavam epinfcios a poetas como Pindaro e Baquilides. A Sicilia, vale lembrar, era celebre, ja na Antigiiidade, pela grande quantidade de tiranos que se sucediam praticamente em todas as polis e, em certos cas os, como Agrigento, tomavam 0 poder pouco tempo apos a funda«;:a0 7• As pesquisas rna is recentes sobre esse fenomeno tentam ultrapassar a tradicional e vee mente condena«;:ao que os pensadores atenienses do periodo classico construiram sobre os tiranos e que permaneceu no pensamento politico ocidentaP. Na contramao da maioria dos auto res modernos, Sian Lewis (2006) questiona se a permanen- cia de governos tirinicos em varias areas do Mediterrineo bern como sua apro va«;:ao por contingentes expressivos da popula«;:ao, como e 0 caso da aclama«;:ao popular de Hieron de Siracusa Diodoro II, 26, 5-6; 67, 2-3) nao seriam indicativos relevantes no sentido de esse tip a de governo ter vantagens a oferecer, em determinadas circunsrancias. No caso da Sicilia constata-se uma instabilidade politico-social endemica gerada pelos conflitos que os gregos enfrentavam em varias frentes: de urn lado a competi«;:ao entre as proprias polis pelo dominio territorial e outras tantas rivalidades trazidas das areas de srcem ou iniciadas ali; a disputa com as popula«;:oes nativas que foram sendo progressivamente desloca- 5. Nagy (1990, pp. 142-143) interpreta as competi~oes pan-helenicas como urn program a ritual em honra de urn heroi que tern na present ~ o do epinicio seu estigio fina l. 6. Sabre os tiranos siceliotas hi virias publica<roes, mas a estudo mais detalhado e abordagens inovadoras e N. Luraghi, Tirannidi arcaiche in Sic ilia e Magna Grecia   1994  7. Agrigento teria sido fundada em 580 c ja entre 572 e 556 0 tirano Falaris e documentado na hisroria da polis (Braccesi, 1998, p. 5). 8. N. Bignotto (1998, p. 13 ), para quem A tirani a, assim como a democracia e uma inven'Tao grega; inven<riio cuja radicalidade e srcinalidade afetaram de mane ira significativa a historia politica do Ocidente . : . Elaine arias Veloso Hirata 124  das para 0 interior diante da expansao das p6lis gregas; final mente , a constante ameac;:a das cidades punicas que ocupavam a porc;:io ocidental da ilha. Diante desse predrio equilIbrio de forc;:as, 0 poder centralizador de urn tirano, aliado a uma capacidade de organizar reac;:oes efetivas diante do perigo externo, talvez tivessem sido elementos favoraveis na avaliac;:io dos governados. A tirania na Sicilia apresenta alg umas particularidades que a tornaram uma experiencia srcinal no mundo grego e urn dos pontos que merece destaque e a postura imperialista de seus principais tiranos que, ao assumirem 0 poder, logo desencadearam uma polItica externa agressiva tentando 0 dominio das p6lis vizinhas utilizando, inclusive, contingentes mercenarios 9• Essa caracteristica e mais claramente perceptivel a partir, aproximadamente, de 498 e 491 a.CIO, com Hip6crates de Gela Her6doto 7.154.1 e 7.155.1) que, ao morrer, e sucedido nio por urn de seus dois filhos, mas por Gelon, eficiente comandante militar que da inicio a urn lange pedodo de tirania conduzido pela familia Deinomenida . Gelon domina Siracusa e a torna 0 centro de urn imperio que , em seu apice, chega a abranger boa parte das fundac;:oes gregas (Braccesi, 1998, p. 22; Luraghi, 1994, pp.1l9 e ss.). Gelon torna-se 0 primeiro tirano siceliota a participar de uma competic;:io pan-helenica: em 488 a.c., vence a corrida de quadriga nos Jogos Olimpicos, 0 que certamente foi capitalizado para legitimar seu acesso ao poder, realizado, na verdade, em prejuizo dos herdeiros naturais de Hip6crates (Luraghi, 1994, pp. 240-241; Van Compernolle, 1969, p. 316). busca de aprovac;:ao do seu governo, Gelon promovera uma remodela c;:io urbanistica de Siracusa, processo que foi qualificado por alguns autores como a refundaC;:io de Siracusa : De fato, a refundac;:io geloniana de Siracusa se apresenta como 0 unico caso em que urn tirano, alem de impor seu pr6prio poder a uma cidade, constr6i, ele mesmo, a cidade que dominara (Luraghi, 1994, p. 288). Her6doto descreve essa ac;:io de Gelon destacando 0 uso da transferencia compuls6ria de populac;:oes das cidades dominadas para Siracusa'  : 9. Luraghi 1994, p. 377) interpreta a tir ania siceii ota em analogia com a que se estabeleceu na Asia Menor, Policrates de Samos tambem implementou uma politica exrema agressiva e usou tropas mercenarias como seus pares da Sicili a. 10. As fontes sio controversas quanto a data de inicio da tirania em Gela. Para esta discussio cf. Luraghi ( 19 94, p. II9, n. I). II. Gelon assume 0 poder em Gela por volta de 491-490 a.c. e permanec e na cidade ate aproximada mente 485-484, quando se instala em Siracusa e ai permanece ate a morte , em 478-477; Hi ero n, seu irmio e por ele indicado a sucede-lo, governa ate 467-466 . 12. 0 termo grego meto ikesis srcinal mente usa do para mudanp individual, ap arece em alguns au tores an tigos referindo-se as cidades: Diodoro Siculo 14.36.4, a respeito de Magnesia; Diodoro Siculo 15 .76.2 e Estra bao 14.2.19 sobre Cos e Diodoro Siculo 13.75.1 sobre Rod es apud Demand, 199 0, p 9). Monumentalidade e Repr esen tar oes do Poder de uma Polis Colonial 125
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