Gênero, sexo e sexualidade enquanto clichês: relendo citações de ‘A face e o verso’, de Jurandir Costa. (2013)

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Este trabalho tem como objetivo reler as citações que o psicanalista Jurandir Costa usa na obra A face e o verso: estudos sobre o homoerotismo II, de 1995, com base na definição de clichê proposta por Amossy e Herschberg Pierrot (2003). Ao mencionar
    Revista Litteris  –   ISSN: 19837429 n. 12 - setembro de 2013 - Volume II   Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br  n. 12 - setembro de 2013 461   GÊNERO, SEXO E SEXUALIDADE ENQUANTO CLICHÊS: RELENDO CITAÇÕES DE A FACE E O VERSO  , DE JURANDIR COSTA Daniel Mazzaro Vilar de Almeida 1  (UFMG / UNIFAL-MG) Resumo:  Este trabalho tem como objetivo reler as citações que o psicanalista Jurandir Costa usa na obra  A face e o verso: estudos sobre o homoerotismo II  , de 1995, com base na definição de clichê proposta por Amossy e Herschberg Pierrot (2003). Ao mencionar diferentes estudos científicos para embasar seu ponto de vista de que a homossexualidade é uma construção da linguagem, Costa também aponta para uma esquematização por repetição do que se entende por gênero, sexo e sexualidade. Com isso, traçamos um paralelo entre esses termos e a definição de clichê, além de entrecruzar esse paralelo com as contribuições da Teoria Queer proposta por Judith Butler. Palavras-chave:  gênero, sexo, sexualidade, clichê, repetição Abstract:  This study aims to re-read quotes used by the psychoanalyst Jurandir Costa in his work  A face e o verso: estudos sobre o homoerotismo II  , published in 1995. To this re-reading, we based on the definition of cliché proposed by Amossy and Herschberg Pierrot (2003). Costa mentions different scientific studies to support his point of view that homosexuality is a construction of language, and he also points that the understanding of gender, sex and sexuality is due to a schematization by repeating. For that reason, we describe a parallel between these terms and the definition of cliché. Furthermore, we collate this with the Queer Theory proposed by Judith Butler. Keywords:  gender, sex, sexuality, cliché, repetition INTRODUÇÃO  Se olharmos cuidadosamente os livros chamados autoajuda , principalmente aqueles cuja temática se refere a relacionamentos, percebemos uma nítida construção de imagens masculinas e femininas enquanto polos opostos da raça humana. Dentre 1  Doutorando em Linguística do Texto e do Discurso pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Lattes: http://lattes.cnpq.br/9932422365928301. Professor Assistente de Língua Espanhola na Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG). Alfenas, Brasil, letrasdaniel@yahoo.com.br      Revista Litteris  –   ISSN: 19837429 n. 12 - setembro de 2013 - Volume II   Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br  n. 12 - setembro de 2013 462   algumas das marcas prototípicas de cada lado desse binarismo, encontramos, por exemplo, a afetividade quase destrutiva da mulher e a racionalização extrema do homem, como se pode observar nas análises feitas por Figueiredo, Divino e Ferreira (2012) da obra  Por que os homens se casam com as mulheres poderosas? , de Sherry Argov. Se não é essa a diferença entre homens e mulheres, entre o masculino e o feminino, entre o macho e a fêmea quais seriam? Essa pergunta foi respondida por quase todas as ciências, desde a análise física até a análise de comportamentos, às vezes comprovadas por números ou por substâncias químicas. Esses estudos, quando comparados, dificilmente se divergem em sua essência, no entanto, por outro lado, quase nunca coincidem quando a pergunta é refeita: a final, o que diferencia homens de mulheres, masculino do feminino e macho da fêmea para que existam, inclusive,  palavras diferentes para designar o mesmo ser? Ou melhor: todo homem é macho e masculino? Todo feminino é mulher e fêmea?  Neste trabalho retomam-se algumas citações que Jurandir Freire Costa usa em seu livro  A face e o verso: estudos sobre o homoerotismo II  , de 1995, no qual a tese central é a que a homossexualidade é uma construção da linguagem. Esta releitura que aqui se apresenta terá como ponto de vista a construção do sexo, da sexualidade (em geral) e do gênero, além de suas compreensões, enquanto clichê. Para tanto, em um  primeiro momento, tentaremos definir clichê com base, principalmente, em Amossy e Herschberg Pierrot (2003). Em seguida, aplicaremos a definição às citações para comprovar nossa hipótese de que todos os três conceitos são clichês para, finalmente, fazer as considerações finais conjugando as conclusões à Teoria Queer   proposta por Judith Butler, que será sinteticamente explicada nesse último momento do texto. O CLICHÊ O clichê é uma das noções que parecem nomear as representações coletivas (ou sociais), assim como estereótipo, doxa e lugar comum que, se não são sinônimas entre si, são, pelo menos, muito próximas e de marcas históricas muito curiosas (por exemplo,    Revista Litteris  –   ISSN: 19837429 n. 12 - setembro de 2013 - Volume II   Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br  n. 12 - setembro de 2013 463   a relação às artes gráficas e a imprensa para dos termos clichê  e estereótipo ). De fato, o dicionário Larousse atribuía a srcem do clichê   “a uma exclamação dos tipógrafos diante das fórmulas usadas pela imprensa” (AMOSSY e HERSCHBERG PIERROT, 2003, p. 17 2 ). Mais que isso, o clichê estava relacionado com a produção massiva (a literatura industrial do folhetim) e a questão da quantidade: quantidade de leitores, quantidade de eleitores etc. Historicamente, a tomada de consciência do clichê se produz durante o século XIX entre os poetas e os prosistas, isto é, sua base parece ser a literatura, principalmente quando houve uma crise da linguagem nos escritores da sociedade francesa pós-revolucionária: a tradição retórica e a convenção versus  a srcinalidade (proposta feita no período do Romantismo); a norma social, a quantidade e a autoridade cristalizada versus  a invenção individual. O eixo básico do clichê, portanto, parece ser a sua fuga do novo, da srcinalidade e a problemática da repetição e da imitação. Problemática  principalmente porque no início de seu uso, juntamente com lugar comum e  frase feita , clichê  se torna um termo pejorativo que se refere ao desgaste da expressão verbal. Paralelamente, a imprensa inventa um novo procedimento de reprodução massiva de um modelo fixo chamado clichê  ou estereótipo , que substitui a composição com caracteres móveis. Assim, por volta de 1860 a palavra clichê   designava o negativo a partir do qual se podia tirar um número indefinido de cópias. Por uma extensão analógica, se usou para denominar “ familiarmente ” , segundo P. Larousse (1869) uma “ frase feita, que se repete nos livros ou na conversação ” , ou mesmo “ um  pensamento que se tornou trivial ”  (AMOSSY; HERSCHBERG PIERROT, 2003, p. 15). A partir de 1870, o termo fica mais de moda e as associações verbais se tornam automáticas, como é o caso de  Le Dictionnaire dês Idées Reçues , de Flaubert, no qual  pode-se perceber uma parodização jocosa dos dicionários de epítetos mostrando seu convencionalismo e suas frases feitas. 2  As traduções para o português desta e de qualquer outra obra citada neste trabalho são de responsabilidade do autor do artigo.    Revista Litteris  –   ISSN: 19837429 n. 12 - setembro de 2013 - Volume II   Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br  n. 12 - setembro de 2013 464    No final do século XIX, o clichê passa a ser objeto da crítica e passa também a representar a materialidade da frase, enquanto o lugar comum representa a trivialidade da ideia. O clichê se relaciona a sua metáfora de srcem que, assim como aqueles negativos da imprensa, funcionam como “blocos indestrutíveis e utilizáveis até o infinito” (GOURMONT, 1899 apud   AMOSSY; HERSCHBERG PIERROT, 2003, p. 16). Assim, o clichê “não é apenas definido como uma fórmula superficial, mas também como uma expressão cristalizada, repetível sob uma mesma forma” ( AMOSSY; HERSCHBERG PIERROT, 2003, p. 16) cuja srcem remonta a literatura ruim, a literatura de folhetins, e está associada ao “cérebro anônimo”, aos imitadores dos grandes escritores. Em seguida, adentra a linguagem da imprensa e passa também a  preocupar os sociólogos. Nessa época, o clichê aparece como “metáfora fotog ráfica e tipográfica da imitação social” ( AMOSSY; HERSCHBERG PIERROT, 2003, p. 17). Embora sejam mencionados brevemente, os clichês recebem um papel ativo de coesão social e a linguagem aparece como “o grande veículo de todas as imitações”, imitação esta que é apresentada como “uma ação à distância de uma mente sobre a outra” ou “ uma ação que consiste em uma reprodução quase fotográfica de um clichê mental pela  placa sensível de outra mente” (TARDE, 1979 apud   AMOSSY; HERSCHBERG PIERROT, 2003, p. 17). Desse pequeno resgate dos significados do termo clichê , parece que o que se destaca é a questão da imitação e da repetição (pejorativamente compreendidas) de um exemplo ou modelo novo e srcinal. No entanto, essa acepção em muito se parece com a de estereótipo , que, como vimos, também tem srcem na tipografia. A possível diferença talvez esteja na forma como se define esta última: enquanto representação cristalizada e esquema cultural preexistente que cada um filtra da realidade do entorno.  Na verdade, parece que se trata de uma preferência das ciências sociais para relacionar um jargão de sua área, a representação social  , a uma de suas características básicas: a esquematização por repetição. O psicólogo social romeno Serge Moscovici introduz o conceito de representações sociais na psicologia social contemporânea na década de 1960. Para ele, As representações sociais devem ser vistas como uma maneira específica de compreender e comunicar o que nós já sabemos. [...]    Revista Litteris  –   ISSN: 19837429 n. 12 - setembro de 2013 - Volume II   Revista Litteris  –   www.revistaliteris.com.br  n. 12 - setembro de 2013 465   Elas têm duas faces [...]: a face icônica e a face simbólica. Nós sabemos que: representação = imagem/significação; em outras  palavras, a representação iguala toda imagem a uma ideia e toda ideia a uma imagem. (MOSCOVICI, 2011, p. 46). Ou seja, as representações sociais tratam com o universo consensual de forma a reduzi-lo a uma imagem comum que paira sob uma sociedade. Como ele explica mais adiante, as representações “‘corporificam ideias’ em experiências coletivas e interações em comportamento”, de forma que es sa familiaridade se mantenha como tal e pareça ser naturalizada. Esse ponto de vista é igualmente importante para a compreensão do gênero, já que, como já comentamos, é dado como natural, quando, na verdade, é uma significação. A preferência pela palavra clichê  na análise deste trabalho se deve ao fato de que estereótipo  tornou-se um conceito que se distancia cada vez mais dos estudos da linguagem que clichê , que parece ainda refletir mais o que aqui se pretende defender: a construção, pela linguagem, do sexo, da sexualidade e do gênero. Talvez o estereótipo fosse o melhor termo a ser empregado exatamente por ser muito utilizado nos estudos das identidades sociais, já que se relaciona com as representações coletivas cristalizadas que desempenham um papel fundamental na coesão do grupo e a consolidação de sua identidade. Por outro lado, é exatamente para mostrar que não se trata conscientemente de uma busca de identidade e de coesão por parte dos sujeitos envolvidos nessa consolidação, de proclamar indiretamente a adesão de sujeitos a um grupo do qual deseja fazer parte, que o termo clichê  caberia melhor neste trabalho. Queremos aqui nos referir à construção em si dos conceitos de sexo, gênero e sexualidade, em como eles se formaram e receberam asrepresentações sociais.  Nesse caso, o conceito de doxa  também se aproxima, já que está muito relacionado às representações sociais e à opinião corrente, sendo, portanto, um dos fundamentos da argumentação (c.f. AMOSSY, 2010). Barthes (1975, p. 51 apud   AMOSSY, 2010, p. 86), inclus ive, afirma que “a Doxa é a Opinião pública, o Espírito majoritário, o Consenso do pequeno-burguês, a Voz do Natural, a Violência do Preconceito”. Isso quer dizer que f  requentemente a doxa  está relacionada à autoridade, ou melhor, ao discurso de autoridade, mas pode se opor ao saber baseado em alguma forma de conhecimento crítico ou reflexivo (que a retórica clássica designava logos ).
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