Fixando significados: práticas de consumo e processos de construção de identidades como rituais cotidianos

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Este artigo apresenta uma reflexão acerca das práticas de consumo contemporâneas e a maneira como se constituem em dimensões importantes da construção de discursos e identidades na contemporaneidade. O consumo foi tratado como uma prática ritual que
  83 Perspectivas, São Paulo, v. 43, p. 83-109, jan./jun. 2013 FIXANDO SIGNIFICADOS: PRÁTICAS DE CONSUMO E PROCESSOS DE CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES COMO RITUAIS COTIDIANOS Lucas Lopes de MORAES 1    RESUMO:  Este artigo apresenta uma reflexão acerca das práticas de consumo contemporâneas e a maneira como se constituem em dimensões importantes da construção de discursos e identidades na contemporaneidade. O consumo foi tratado como uma prática ritual que fixa significados e fornece material simbólico para a elaboração de uma imagem e um discurso sobre a identidade individual. Para tanto, foi realizada uma pesquisa de campo na Galeria do Rock localizada na cidade de São Paulo, na qual, através de observações e entrevistas, foram apreendidas algumas dimensões da apropriação dos bens simbólicos e da produção discursiva que circundam a definição de uma identidade individual constantemente (re)afirmada e (re)elaborada.   PALAVRAS-CHAVE:  Consumo. Identidade. Práticas cotidianas. Antropologia Urbana. Introdução Esse artigo é produto das reflexões de uma pesquisa que buscou apreender, através de uma análise de cunho antropológico, algumas dimensões dos processos de formação de identidades na contemporaneidade, elencando as práticas de consumo como objeto de estudo e observação empírica.O local escolhido para as observações empíricas foi a Galeria do Rock   (um Shopping Center   localizado no centro da cidade de 1  USP – Universidade de São Paulo. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. São Paulo – SP – Brasil. 03828-000 – lucaslmoraes@usp.br   84 Perspectivas, São Paulo, v. 43, p. 83-109, jan./jun. 2013 São Paulo, especializado no comércio de artigos ligados ao  rock and roll  e outros gêneros musicais e coletivos urbanos), na qual a circulação intensa de pessoas possibilitou exemplos diversos de consumo de bens simbólicos de um tipo bem específico: aquele ligado prioritariamente à produção de “imagens de si” e aquilo definido por alguns autores como estilo de vida  (BOURDIEU, 1996; FEATHERSTONE, 1995). Entre  punks  ,  headbangers  , emos  , “manos” e outros estilos já etnografados por pesquisas anteriores (CAIAFA, 1985; ABRAMO, 1994; COSTA, 2000; SOUZA, 2005; LOPES, 2006) a intenção inicial foi mapear indivíduos praticantes desse consumo simbólico que transitassem não somente entre o seu coletivo de referência, ou entre os ambientes mais comumente ligados ao seu estilo de vida , mas que em seu cotidiano atravessassem campos sociais diversos, dotados de outros referenciais simbólicos, diferentes daqueles nos quais as escolhas de consumo estariam baseadas. Em outras palavras, um sujeito  headbanger  2  (que em seu discurso se define como tal), que em suas experiências cotidianas também transitaria em outros campos nos quais o seu visual causaria um impacto diferente (como no trabalho, na escola, ou em uma reunião de família) do que no interior do seu grupo de referência, ou até mesmo dos ambientes ligados às suas práticas mais “identitárias”.A antropologia nos indica que todas as práticas diárias, e até as relações menos perceptíveis, são rotas de desvendamento para os sentidos dados às ações humanas e ao mundo; neste sentido, nenhuma dimensão da vida social pode ser menosprezada. A “experiência/cultura ordinária”, como diria Raymond Williams (1992), ou a constante “invenção do cotidiano” na obra de Michel De Certeau (1998) são questões que não podem ser negligenciadas, pois seria nos momentos em que os sujeitos demonstram sua capacidade criativa no trato com as relações sociais que as estruturas poderiam tornar-se “mais visíveis”. Ou melhor: seria nos instantes nos quais o indivíduo aplica suas táticas  , que as estratégias   se tornariam mais claras (DE CERTEAU, 1998).Portanto, o consumo como uma prática diária é um elemento muito importante para a compreensão das perspectivas individuais acerca de suas relações. Deste modo, não se abrange 2    Headbanger   é um termo em inglês usado para denir os indivíduos relacionados à cultura  Heavy  Metal  .  Bangear   (corruptela do inglês bang  ) entre eles é o ato de balançar as cabeças durante os shows seguindo o ritmo da música. Também são comuns os termos  Metalhead   e  Metalheart  , já que “metaleiro” é considerado pelos adeptos do estilo como um termo pejorativo.  85  Perspectivas, São Paulo, v. 43, p. 83-109, jan./jun. 2013 as sutilezas e a complexidade do fenômeno ao ter como ponto de partida a noção de que o consumo é unicamente uma resposta dos consumidores às propagandas, ou, em outros termos, um produto das estratégias de marketing das empresas e das “intenções” de uma Indústria Cultural (ADORNO; HORKHEIMER, 1985). Talvez  todos, em algum momento, já tenhamos sentido impulsos de consumir um bem após assistir uma propaganda na televisão, o que não significa que compramos pelos mesmos motivos, que usamos esses bens para as mesmas finalidades e que estabelecemos as mesmas perspectivas diante da satisfação através dessas mercadorias. A “ideologia unidimensional” (MARCUSE, 1982), a “indústria cultural” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985) ou os “simulacros” (BAUDRILLARD, 2005) são respostas que, a partir das observações de campo realizadas nesse trabalho, pareceram muito radicais para uma pergunta que diz respeito ao cerne das relações nas sociedades contemporâneas: por que as pessoas consomem?Como Mary Douglas (1976, 2006) aponta, os bens seriam a dimensão material de um ritual que ocorreria cotidianamente entre as pessoas e fixaria significados, servindo como “pontes” ou “cercas” entre os sujeitos e os grupos. Por isso, se as práticas de consumo poderiam ser tomadas como uma dimensão importante do processo de construção das identidades, todo discurso produzido com a intenção de dizer “quem somos” – e que usa os bens como recursos – também poderia ser encarado como um ritual que (re)estabelece uma determinada “ordem” em nosso contexto cultural contemporâneo.A partir dessas questões, este trabalho buscou analisar as maneiras como os sujeitos contemporâneos se apropriam de bens no sentido de dar forma a um discurso que busca estabelecer a representação de uma identidade individual (e coletiva) muito maleável, mas nem por isso efêmera. Para tanto, a Galeria do Rock   na cidade de São Paulo foi um ambiente propício para a observação e reunião de informações, dado que diversos coletivos/atores e estilos urbanos, como góticos,  punks,  headbangers  , entre outros, circulam pelo local, consomem por lá e estabelecem relações com seus pares e demais frequentadores. Fui, então, tentar entender como essas práticas de consumo relacionadas a um determinado estilo de vida  estariam ligadas ao processo de construção de identidades individuais, ou seja, como os usos e apropriações dessas mercadorias seriam promovidos  86 Perspectivas, São Paulo, v. 43, p. 83-109, jan./jun. 2013 cotidianamente a partir de referenciais pré-determinados pelas experiências e intenções desses sujeitos. Consumo: reprodução ou produção cotidiana? Há um universo amplo de estudos que se debruçam na compreensão das transformações ocorridas nas últimas décadas nas sociedades capitalistas modernas e, em grande parte dessas reflexões, o consumo surge como uma dimensão importante dos processos que vivenciamos. Como prática cotidiana ele aparece definido como produto e, muitas vezes, objetivo final de toda propaganda e, no limite, dos próprios processos produtivos (HARVEY, 1992). É uma visão unânime que muitas de nossas relações são mediadas por mercadorias – já no século  XIX, Karl Marx apontava esse fenômeno, definido ao seu modo como “fetichismo da mercadoria” (MARX, 2011[1867]) –, ainda que o tratamento do tema tenha gerado diversas posições e interpretações. Contudo, o enfoque da discussão apresentada aqui parte de uma perspectiva antropológica sobre o consumo e as maneiras como essas práticas podem influenciar ou servir a construções identitárias.A abordagem aqui proposta parte das interpretações que autores como Mary Douglas (2006) e Michel De Certeau (1998) realizam dessas práticas cotidianas, com a perspectiva de ampliar as possibilidades de manipulação dos bens como demarcadores sociais, dando atenção especial à maneira como os sujeitos se apropriam e fazem uso dessas mercadorias. Consumo como prática, prática como consumo Ao analisar as práticas de consumo de alguns sujeitos na Galeria do Rock  , busquei delimitar de que forma a identidade individual se estabilizaria como referencial para as ações futuras, estando ligada a uma gama de relações diversas com as quais esses sujeitos travam contato. Por assumir a identidade na contemporaneidade como um processo ininterrupto de negociação simbólica, tornou-se necessário adotar uma perspectiva sobre as práticas de consumo que não se distanciasse do argumento da reprodução passiva de valores por parte dos sujeitos.Nesse sentido, Michel De Certeau (1998) realiza uma contribuição muito importante ao debate sobre as práticas  87  Perspectivas, São Paulo, v. 43, p. 83-109, jan./jun. 2013 cotidianas e a forma como indivíduos se comportam diante das determinações estruturais dispostas na sociedade. Ele defende que muitas vezes as condutas e valores impostos ao indivíduo (as estratégias  ) podem ser subvertidos no momento da prática, estabelecendo possibilidades de ação (a tática ) que, se não contrariam totalmente as estruturas, ao menos se aproveitam das “brechas” deixadas pela ordem social estabelecida. Apesar de sua reflexão ter um caráter ensaístico, sem se preocupar com a elaboração sistemática de um corpo teórico ou com a definição de um aparato conceitual facilmente aplicado a uma pesquisa empírica, De Certeau abre um debate que amplia as possibilidades de leitura da ação individual diante das determinações estruturais. Ao enfatizar os conceitos de usos e  práticas cotidianas,  o autor avança na reflexão dos processos de interiorização individual das estruturas sociais em relação à obra de Pierre Bourdieu (1996, 2001, 2007), que mesmo dando grande ênfase à dimensão subjetiva desse fenômeno, mantém os sujeitos atados às estruturas sociais através de seu conceito de  habitus. As práticas para Bourdieu seriam uma dimensão muito importante da vida social, pois através delas os sujeitos se relacionariam com o mundo social e assimilariam essas disposições. O  habitus seria a estrutura estruturada  que “interpreta” o mundo e “filtra” as informações, se constituindo  também em uma estrutura estruturante , perfazendo um mecanismo inescapável de interiorização e exteriorização das formas. É nesse ponto que De Certeau irá construir sua crítica, pois, segundo ele, ao definir os parâmetros dessa relação entre indivíduos e sociedade como uma sobreposição de estruturas estruturadas e estruturantes  , Bourdieu colocaria em segundo plano as capacidades de apropriação e subversão dos sujeitos diante das determinações sociais. Para De Certeau há uma “margem de manobra” dos indivíduos que escapa à douta  ignorância  do  habitus  , “acusada de ser sábia inconscientemente,  justamente por saber demais o que não quis dizer” (DE CERTEAU, 1998, p.129) 3 .Entretanto, não podemos negar as contribuições de Bourdieu aos temas do consumo e da identidade, pois em sua obra são 3  Nessa passagem Michel de Certeau busca apontar as limitações do conceito de habitus , e como ele seria, por sua vez, produto de uma postura intelectual de Bourdieu, que, ao tentar nublar as possibilidades transformadoras das “microatividades diferentes” presentes nas práticas individuais, eliminaria um elemento que ameaçaria todo e qualquer modelo sociológico. Para De Certeau, a “recusa” dessa dimensão da ação individual responderia às necessidades totalizantes de uma teoria social – presentes em Bourdieu – e talvez daí advenham as reservas de De Certeau em construir um corpo teórico bem denido.
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