Do público para o privado: A marca humana e a ansiedade do final do século XX

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Resumo: A partir da análise do romance A marca humana, de Philip Roth, o presente trabalho busca examinar uma das idiossincrasias do final do século XX, que é a supervalorização dos problemas privados, colocando-os no centro da esfera pública.
  [revista dEsEnrEdoS  - ISSN 2175-3903 - ano VII - número 23 - teresina - piauí - maio de 2015]  1 Do público para o privado:  A marca humana   e a ansiedade do final do século XX   Marina Pereira Penteado 1   Resumo:  A partir da análise do romance  A marca humana  , de Philip Roth, o presente trabalho busca examinar uma das idiossincrasias do final do século XX, que é a supervalorização dos problemas privados, colocando-os no centro da esfera pública. Através de estudos sobre o período em destaque, proponho um debate a respeito de como a lógica do capitalismo tardio, que é voltada para o mercado, proporciona essa ênfase na vida privada e de que maneira ela é abordada por Roth ao contar a história do professor universitário Coleman Silk. Palavras-chave: Final do século XX; Público; Privado;   Literatura norte-americana;  A marca humana  .  Abstract:   This article exams how in the end of the twentieth century private issues end up becoming the center of the public sphere through the analysis of Philip Roth’s novel The Human Stain  . Taking into account studies about the historical period, this article proposes a discussion on how the logic of late capitalism offers an emphasis on private problems and the way this is approached by Roth’s narrator when he tells the story of Coleman Silk.  Keywords: End of the 20th century; Public; Private; North American literature; The Human Stain  .  A “trilogia americana”  de Philip Roth, composta por Pastoral americana   (1998) e Casei com um comunista   (1999), chega ao fim com o romance  A marca humana (2000) e uma crítica ao moralismo norte-americano que se torna latente no final do século XX com o escândalo político que envolveu o período. “Se você não viveu 1998, 1  Marina Pereira Penteado é mestre em Teoria Literária pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).  [revista dEsEnrEdoS  - ISSN 2175-3903 - ano VII - número 23 - teresina - piauí - maio de 2015]  2  você não sabe o que é santimônia” (ROTH, 2014, p. 8), avisa o narrador de Roth. O clima que paira sobre o país, impulsionado pela sociedade espetacular que faz questão de explorar à exaustão o caso do então presidente Bill Clinton com a estagiária Monica Lewinsky, mostra a preferência nacional por assuntos de ordem privada em detrimento dos de ordem pública. Casos extraconjugais parecem receber mais atenção do que reformas ou políticas públicas propostas pelo governo, evidenciando a ansiedade que toma conta do país, que se encontra em um momento sem guerras e de expansão econômica, mas que, entretanto, parece constantemente impelido nostalgicamente para um tempo menos tranquilo. É no clima de histeria no qual os Estados Unidos se encontravam no final dos anos de 1990 que o romance de Roth é narrado, proporcionando um panorama da década e das angústias presenciadas. A história do professor universitário Coleman Silk é contada por Nathan Zuckerman, alter ego de Roth já conhecido dos leitores da “trilogia americana”, assim como de outros romances do escritor.   Após utilizar a palavra spooks  2   para se referir a dois alunos ausentes, Silk é acusado de racismo e vê sua carreira universitária em declínio. Com a morte de sua esposa, Iris, que Silk acredita ter sido causada em decorrência do estresse que o processo com os dois alunos provocou à família, Coleman, então com 71 anos de idade, começa a ter um caso com uma faxineira trinta e sete anos mais jovem do que ele. O caso chega ao conhecimento dos ex-colegas da Faculdade de Athena, onde Silk lecionou por mais de vinte anos, e a intolerância frente às diferenças de idade e de instrução entre os dois leva os outros professores a reações que beiram à histeria.  A acusação de racismo por si já é narrada como um mal entendido levado ao extremo, uma vez que o próprio Silk, como o leitor vai descobrir ao longo do romance, é negro e apenas consegue esconder esse fato por apresentar um tom de pele mais claro. As possibilidades que Silk percebe surgirem caso ele invente para si uma ancestralidade judia (viável graças a ele vir de uma vizinhança composta majoritariamente por judeus) fazem com que a personagem negue o seu passado, 2  Palavra que em inglês pode ser utilizada para se referir a “fantasmas”, “espectros”, mas que também pode ser utilizada para se referir, pejorativamente, aos negros.  [revista dEsEnrEdoS  - ISSN 2175-3903 - ano VII - número 23 - teresina - piauí - maio de 2015]  3 além de esconder sua srcem da esposa e dos filhos. Contudo, a escolha não é pautada por desprezo pela sua família, mas sim por uma vontade que está intricada na sociedade norte-americana como uma das características mais latentes da mesma, como indica o narrador ao afirmar: “tudo que ele sempre quisera, desde pequeno, era ser livre: não negro, nem mesmo branco  –   simplesmente independente e livre” (ROTH, 2014, p. 138) . Da mesma maneira, seu relacionamento com Faunia Farley, a faxineira da Faculdade de Athena, também é distorcido e vem a ser tratado de maneira moralista pelos que estão de fora, que  veem a relação apenas como um abuso por parte de Silk, que não poderia ter um caso com uma mulher analfabeta e muito mais jovem, ignorando qualquer tipo de identificação e cumplicidade que possa existir entre os dois. Roth localiza a história no berço do puritanismo norte-americano, a Nova Inglaterra, onde Silk e Zuckerman são vizinhos. O ritmo da narrativa, em diálogo com esse lugar, avança com um panorama de personagens angustiadas por apontar o dedo para alguém e poder acusá-las de algo: Na Nova Inglaterra, o verão de 1998 foi marcado por muito sol e calor; no beisebol, por uma batalha entre um deus branco e outro negro; e, nos Estados Unidos, por uma imensa febre de religiosidade, de puritanismo, quando o terrorismo  –   que se seguiu ao comunismo como a principal ameaça à segurança do país  –   foi sucedido pela felação, quando um presidente viril, de meia idade mas de aparência jovem, e uma estagiária ousada e apaixonada, com vinte e um anos de idade, aprontaram no Salão Oval como se fossem dois adolescentes num estacionamento, resgatando a mais antiga paixão nacional americana, historicamente talvez o seu prazer mais traiçoeiro e subversivo: o êxtase da santimômina (ROTH, 2014, p. 8). O resgate dessa paixão nacional, que o narrador chama de “êxtase da santimônia” , surge em uma situação peculiar, explicitada no trecho citado: o período pós Guerra Fria e pós Guerra do Golfo. Esse final do século que ficou marcado por ser um período economicamente próspero e sem guerras e,  [revista dEsEnrEdoS  - ISSN 2175-3903 - ano VII - número 23 - teresina - piauí - maio de 2015]  4 consequentemente, de relativa segurança para os Estados Unidos, para alguns teóricos como Fredric Jameson, também ficou marcado por ter sido um momento pouco político. Ao comparar dois debates sugestivos que derivam de Hegel e discorrem, respectivamente, sobre o “fim da arte” e sobre o “fim da história”,  Jameson, em um texto que compõe o livro  A Virada Cultural  , observa que o primeiro parte de uma situação extremamente política dos anos de 1960 e tinha como meta sugerir e “registrar a profunda cumplicidade das instituições e dos cânones culturais, dos museus e do sistema universitário, enfim, do prestígio estatal de todas as belas-artes, com a Guerra do Vietnã entendida como uma defesa dos  valores ociden tais” (JAMESON, 2006, p. 130) . O segundo, por sua vez, que concerne o “fim da história”, surge no final do século, mais especificamente no  verão de 1989, com Francis Fukuyama 3    –   que estrategicamente também ocupava uma posição no Departamento de Estado do Bush  –    e sugere que com “o final da Guerra Fria, o capitalismo e o mercado poderiam ser declarados a forma final da própria história humana” (JAMESON, 2006, p. 148 -149). Para Jameson, o sentido do ensaio de Fukuyama reside muito mais em uma relação com o presente no qual foi escrito do que com Hegel, uma vez que ele observa que o ensaio não trata sobre o tempo, mas sobre o espaço: [...] “o fim da história” de Fukuyama não é, de modo algum sobre o Tempo, mas antes sobre o Espaço, e que as ansiedades que tão fortemente implica e expressa, às quais dá uma figuração tão útil, não são preocupações inconscientes sobre o futuro ou sobre o Tempo; expressam o sentimento de constrição do Espaço no novo sistema mundial, pressagiam o fechamento de uma outra fronteira, mais fundamental, no novo mercado mundial da globalização e das corporações transnacionais (JAMESON, 2006, p. 151). 3  FUKUYAMA, Francis. The End of History and the Last Man . New York: The Free Press, 1992.  [revista dEsEnrEdoS  - ISSN 2175-3903 - ano VII - número 23 - teresina - piauí - maio de 2015]  5 Ou seja, com a ampliação dos mercados  –   proporcionada não necessariamente pelo colapso dos sistemas comunistas, mas que surge concomitantemente com essa queda  –   começa um terceiro estágio do capitalismo, o também chamado de capitalismo tardio 4 , que é quando se torna difícil imaginar uma maneira de ampliar ainda mais o sistema.  Tal “bloqueio na imaginação histórica” (JAMESON, 2006, p. 152)  torna o período propício para afirmações como a de Fukuyama, que explicitam a ansiedade do final do século de não conseguir imaginar uma maneira de ir além do que o período das commodities   proporciona. Fredric Jameson, a partir das discussões de Lefebvre sobre a produção do espaço, discorre sobre o assunto também em Pós-Modernismo  –   a lógica do capitalismo tardio  e observa que a preferência pelo espaço no período atual pode ser compreendida como uma reação à retórica oficial “há muito tempo canonizada da temporalidade” (   JAMESON, 1996, p. 265). Mas a dominação do espaço, para o teórico, está sobretudo intricada a uma cultura que se espalha espacialmente através de imagens. Com uma visão esquizofrênica 5 , na qual não se distingue mais passado, presente e futuro, Jameson nota que a espacialização do tempo está diretamente ligada à perda da consciência histórica na pós-modernidade. Se a história agora é constituída apenas de eventos isolados, percebidos em termos de um eterno presente, perde-se a continuidade temporal. Desta forma, o sujeito contemporâneo tende a experimentar a vida a partir de eventos únicos, ou espetáculos, causados pela velocidade do capitalismo tardio e proporcionando, por conseguinte, uma nostalgia por um tempo em que ainda era possível perceber a história como uma continuidade. 4  Utilizo aqui o termo escolhido por Fredric Jameson em Em  Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio  para se referir ao período. O termo, por sua vez, vem do título de um livro de Ernest Mandel, de 1972, com esse mesmo nome, no qual o economista mostra os rumos do terceiro estágio capitalista, denominado, então, de capitalismo tardio; estágio que sucede o capitalismo de mercado e o capitalismo monopolista ou imperialista, sendo agora mais conhecido como globalização. 5  Para pensar tal estrutura, Jameson parte das exposições de Lacan sobre a esquizofrenia, que ele sintetiza como sendo a “ruptura na cadeia dos significantes” (JAMESON, 1996, p. 53).  
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