Conhecimento e Supremacia Estratégica: “Paperclip”

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Imediatamente após a queda da Alemanha Nazi, em 1945, diversas potências Aliadas entraram numa corrida pelo conhecimento da potência beligerante derrotada. O relativo avanço tecnológico da Alemanha em relação às potências Aliadas, nessa época,
  1 Conhecimento e Supremacia Estratégica: “ Paperclip ”    José M. Pinheiro Imediatamente após a queda da Alemanha Nazi, em 1945, diversas potências Aliadas entraram numa corrida pelo conhecimento da potência beligerante derrotada. O relativo avanço tecnológico da Alemanha em relação às potências Aliadas, nessa época, despoletou operações em grande escala para a extração, aquisição, assimilação e exploração de conhecimento técnico e científico Alemão. “ Paperclip ”  designa a mais famosa dessas operações, fornecendo um exemplo prático para discussão sobre a gestão do conhecimento  –   inteligência competitiva - as suas ligações com a inovação, e a relação desta última com a supremacia tecnológica e estratégica das nações, instituições de investigação e empresas. O modelo de Nonaka-Takeuchi é abordado para enquadrar os efeitos de apr  endizagem inerentes à operação “  paperclip ”  sobre componentes importantes de inovação tecnológica norte-americana no pós-guerra. 1.   Introdução  Na aproximação ao final da segunda guerra mundial era notório o avanço da Alemanha nalgumas áreas tecnológicas e sistemas de armas, de que o míssil A-4 (V-2 1 ) é o exemplo mais conhecido. A crescente tensão latente entre as principais potências Aliadas pela disputa entre zonas de influência sob controlo prévio da Alemanha começaram a srcinar conflitos de baixa intensidade, em particular entre os EUA e a URSS, conduzindo ao período de guerra fria, a novas corridas ao armamento, e a uma intensa batalha silenciosa pela supremacia tecnológica e estratégica global. O início dessa disputa, que duraria várias décadas (45-91) e ainda não se pode dar por terminada nos dias de hoje, teve srcem logo após o fim da guerra, em 1945. Sob a chancela do Presidente Truman, a OSS (Office of Strategic Services, a organização predecessora da CIA, Central Intelligence Agency) lançou um programa de localização e recrutamento de cientistas da Alemanha, de forma a explorar o seu conhecimento tecnológico e, por outro lado, a negá-lo à outra potência global emergente: a URSS. Os Russos  –   bem como os Ingleses, Canadianos e Franceses  –   desencadearam operações semelhantes 2 , na mesma altura, sendo porém a operação norte-americana a 1  V-2 de Vergeltungswaffe-2, literalmente “ arma de vingança 2 ” .  2 mais conhecida, em virtude de alguns dos seus resultados mais tangíveis (em particular, a ida à Lua em 1969 resultou, ainda que indiretamente, da operação “paperclip”).   2.   Operação “ Paperclip ”   Após uma sucessão de invasões e rápidas vitórias iniciadas em 1939, Hitler estava confiante numa vitória rápida também sobre a URSS, possivelmente em menos de um ano, como lhe havia garantido o Estado-Maior Alemão. Em 1941 a Alemanha decidiu invadir a URSS, através de uma gigantesca operação militar envolvendo mais de três milhões de militares de vários países do Eixo (  Barbarossa ). Embora os primeiros meses de operações tenham conseguido aos Alemães a apropriação de imensas áreas geográficas, materiais e recursos Soviéticos, através de uma série considerável de vitórias em batalha, a URSS resistiu ao embate inicial,  passando ao contra-ataque durante o Inverno de 1941, e obrigando o inimigo a alocar e reter na frente Leste forças consideráveis durante vários anos. Em particular, o falhanço da tomada de Moscovo (1941), do cerco a Leninegrado (1941-1944), e da batalha de Estalinegrado (1942-1943), atiraram o exército Alemão  para a defensiva ou retirada constante, que não voltaria a abandonar até à batalha de Kursk (1943), a maior batalha de blindados da história e a última grande derrota estratégica da Alemanha na frente Leste. A conquista falhada da URSS exauriu progressivamente os recursos da Alemanha e do seu complexo industrial-militar, tornando-a mais vulnerável aos contra-ataques aéreos Aliados, a Ocidente, e ao imparável avanço do Exército Vermelho, a Oriente.  No início de 1943, o governo Alemão começou a retirar de combate um grande número de cientistas, engenheiros e técnicos, num esforço de investimento derradeiro em 2   A contra-  parte Russa da operação “paperclip” é conhecida por operação “osoaviakhim”, tendo sido lançada pelo NKVD (organização precursora do KGB) em 1946, muito embora o registo, localização e captura de cientistas Alemães, bem como a apreensão de material científico e tecnológico tenha sido encetado mais cedo. Algumas fontes dão como certa a deslocalização de grandes quantidades de material e pessoal para a URSS após 1946, referindo cerca de 90 a 100 comboios e 10.000 a 15.000 pessoas ligadas ao sistema científico-tecnológico Alemão (incluindo pessoal especializado anteriormente afecto a diversas empresas Alemãs, como por exemplo a Zeiss). A operação “backfire”, designa o  esforço Britânico para a captura de engenharia de foguetões Alemã. A operação “Matchbox” o equivalente Canadiano. As operações “Alsos”, “Big” ou “Epsilon”, designam esforços conjuntos dos Aliados para a captura de informação e tecnologia nuclear Alemã, equipamentos e pessoal. A o  peração “V - 2”, levada a cabo pelas forças do major William Bromley, foi bem-sucedida na captura e apropriação de peças para 100 mísseis A-4 (V-2) da fábrica subterrânea Mittelwerk, em Kohnstein.    3  pesquisa e desenvolvimento de soluções técnicas que lhe permitisse contra balançar a sua desvantagem estratégica. A base de Peenemünde, localizada no nordeste da Alemanha e para onde foram deslocados mais de 4.000 cientistas e técnicos de engenharia aeronáutica e de foguetões, destacou-se como um dos principais centros de investigação Alemães. Werner Osenberg, o engenheiro responsável pelo Wehrforschungsgemeinschaft (Associação de Investigação Militar Alemã), reuniu numa lista os nomes dos homens de confiança política com capacidades técnicas de topo que pudessem ser colocados ao serviço do regime.  No fim da guerra, em Março de 1945, na universidade de Bona, um técnico de laboratório Polaco encontrou partes dessa lista, que chegou primeiro ao MI-6 britânico e depois à OSS norte-americana. A lista de Osenberg, completada pelo major norte-americano Staver, serviu de base a missões de captura e interrogatório de cientistas Alemães pelos Aliados. Um dos nomes de topo dessa lista era Werner von Braun 3 , o diretor técnico do programa de mísseis Alemão que viria a dirigir, anos mais tarde, partes essenciais do projeto espacial norte-americano 4 . Também Walter Dornberger, o superior hierárquico de von Braun, esteve no pós-guerra  primeiro ao serviço dos Ingleses, depois da Força Aérea norte-americana, onde desenvolveu uma série de mísseis teleguiados, e por fim da Bell Aircraft Corporation, onde desempenhou um papel central no desenvolvimento do avião Bell X-15, aparelho que continua a deter hoje em dia o recorde de velocidade mundial na sua classe (7.274 Km/h). 3  Helmut Grötturp, engenheiro eletrotécnico e assistente de von Braun durante a segunda guerra mundial  –   era responsável pelo sistema de orientação por rádio dos foguetões A-4/V-2 - decidiu trabalhar para os Russos no pós-guerra, ajudando-os a desenvolver o R-1 (designação NATO SS-1); mais tarde Grötturp regressou à Alemanha, onde inventou os cartões com circuitos integrados. 4   Werner von Braun e sua equipa trabalharam no programa de mísseis balísticos norte-americano, no pós-guerra, e foram mais tarde assimilados pela NASA; von Braun foi o primeiro director do Marshall Space Flight Center, e o arquiteto principal do foguetão Saturn V que propulsionou as missões Apolo até à Lua.    4 Através da operação oficialmente iniciada a 19 de Julho de 1945 5  os norte-americanos deram início ao que viria a to mar o nome de “paperclip”  (a designação adotada após Março de 1946, (Lasby, 1971)). Em 1947 tinham já sido reunidos sob controlo norte-americano e em diversas localizações na Europa cerca de 1.800 técnicos e cientistas ligados à investigação e desenvolvimento de foguetes, foguetões, armas navais, armas químicas e nucleares e de diversas outras áreas técnico-científicas. O objetivo norte-americano na primeira fase da operação foi interrogar os cientistas e técnicos por forma a extrair e organizar o máximo de informação possível, por um lado, e identificar os técnicos e cientistas principais a deslocar para os EUA, por outro. A maioria destes técnicos e cientistas esteve praticamente detida durante os três anos subsequentes ao seu “recrutamento” , impossibilitando a Alemanha de qualquer recuperação da sua experiência técnica. Os melhores cientistas e técnicos Alemães foram levados para os EUA no decorrer do  processo, tendo os serviços secretos norte-americanos criado em muitos casos documentação e biografia falsas para os cientistas, de forma a fazê-los passar pelo crivo oficial norte-americano, que impedia formalmente a entrada nos EUA de qualquer  pessoa com um passado nazi. Os técnicos e cientistas Alemães levados para os EUA foram integrados em diversas instituições militares e civis de pesquisa, tendo-se-lhes atribuído inicialmente contratos de um ano, em geral. Em Setembro de 1945, o primeiro grupo de cientistas chegou a Fort Strong. Integravam-no Werner Von Braun, Erich Neuberg, Teodhor Poppel, August Schulze, Eberhard Rees, Willhelm Jungert e Walter Schwidetzky. Seguiram-se-lhes três outros especialistas em foguetões ainda em 1945, sete especialistas em combustíveis sintéticos em 1946, e uma longa sucessão de outros especialistas nas mais diversas áreas ao longo dos anos seguintes, atingindo um total estimado superior a 1.600 técnicos e cientistas 6 . 5    Nome de código “Overcast”.   6  Alguns dos mais conhecidos e principais técnicos e cientistas; Tecnologia de foguetes: Rudi Beichel, Magnus von Braun, Werner von Braun, Werner Dahm, Konrad Dannenberg, Kurt Debus, Walter  5 Vários deles, investigados mais tarde por jornalistas ou localizados pela justiça, foram acusados e levados a julgamento pela prática de crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante o período nazi, nomeadamente experiências médicas em  prisioneiros dos campos de concentração. A este respeito, acrescente-se que no Pacífico, os norte-americanos também recrutaram elementos da unidade japonesa 731, responsável pelo desenvolvimento de armas  biológicas, e suspeita de crimes contra a humanidade. Aparentemente, a importância dos conhecimentos detidos por este tipo de elementos era “ suficientemente interessante” para os serviços secretos norte -americanos encontrarem formas de falsificar credenciais e recrear passados de forma a contornar a proibição de entrada de criminosos de guerra nos EUA, e impedindo que fossem alvo de curiosidade ou acusações criminais, pelo menos durante alguns anos. A polémica em redor do passado de alguns desses personagens, mais tarde, viria a atingir e conduzir ao afastamento do próprio Werner von Braun, o Alemão mais mediático nos EUA antes e depois da primeira viagem à Lua em 1969 (foi capa da Time magazine a 17 de Fevereiro de 1958). 3.   Conhecimento e Supremacia Estratégica Existem algumas especificidades na operação “paperclip” que a tornam num caso de especial interesse no que se refere à relação entre o conhecimento, a sua gestão, e a supremacia estratégica dos EUA, bem como a aquisição de vantagens competitivas por diversas instituições de investigação e desenvolvimento, universidades e empresas norte-americanas durante o pós-guerra. Em primeiro lugar, a escala e o impacto indireto da operação, cuja magnitude pode  percecionar-se como muito elevada e temporalmente longa  –    a operação “paperclip” não teve um fim oficial e foi secreta durante muitos anos - não apenas para as potências envolvidas na captura e aquisição dos conhecimentos técnicos da Alemanha, como para o resto do mundo na segunda metade do século XX. Dornberger, Ernst Eckert, Krafft Arnold Ehricke, Otto Hirschler, Hermann Kurzweg, Fritz Mueller, Eberhard Rees, Gerhard Reisig, Georg Rickhey, Werner Rosinski, Ludwig Roth, Arthur Rudolph, Ernst Steinhoff, Ernst Stuhlinger, Bernhard Tessmann, Georg von Tiesenhausen; Aeronáutica: Siegfried Knemeyer, Alexander Lippish, Hans von Ohain, Hans Multhopp, Kurt Tank; Medicina: Walter Schreiber, Kurt Blome, Hubertus Strughold, Hans Antmann; Electrónica: Hans Ziegler, Kurt Lehovec, Hans Hollmann, Johannes Plendl, Heinz Schlicke; Serviços Secretos: Reinhard Gehlen, Otto von Bolschwing.
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