Aprender a comer: O vegetarianismo enquanto exercício espiritual

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Dissertação apresentada como requisito parcial para a conclusão da disciplina Ética Aplica no PPG de Filosofia em 2014.
   APRENDER A COMER: O vegetarianismo enquanto exercício espiritual Dissertação apresentada como requisito para a conclusão da disciplina Ética Aplicada. Professora/Orientadora: Loraine Oliveira. Lorrayne Bezerra Vasconcelos Colares Maio de 2014, Brasília  –  DF  2 APRENDER A COMER: O vegetarianismo enquanto exercício espiritual "[...] Para o homem comum, cotidiano, o valor da vida baseia-se apenas no fato de ele se tomar por mais importante que o mundo; a grande falta de imaginação de que sofre faz com que não possa colocar-se na pele de outros seres, e em virtude disso participa o menos possível de seus destinos e dissabores. [...] " Nietzsche 1. Introdução A tese do filósofo francês contemporâneo Pierre Hadot a respeito dos assim chamados exercícios espirituais praticados na Antiguidade greco-romana, assim como a defesa do conceito de filosofia enquanto terapêutica  , enquanto modo de vida   e como prática de exercícios espirituais   revolucionou o estudo da história da filosofia antiga, nos oferecendo assim novas possibilidades interpretativas a respeito dos antigos greco-romanos e de nós sujeitos contemporâneos. Nesse artigo, visamos apresentar e discutir as teses de Hadot, a fim de, em um segundo momento, propor uma discussão no âmbito da filosofia contemporânea a respeito da possibilidade de visualizar o vegetarianismo enquanto um exercício espiritual, exercício esse que também não se restringiu aos antigos e que ainda pode ser vivido na atualidade. Sendo assim, da mesma forma como o faz Pierre Hadot, o objetivo do texto é o de observar uma suposta permanência da tradição antiga em nós, além de nos atentar à importância da questão da dietética enquanto um conhecimento de si mediado pelo conhecimento do corpo. Nesse caso, entraremos no campo das  3 discussões éticas, na tentativa de mostrar, por sua vez, que uma análise do vegetarianismo pode ser de imenso interesse para a filosofia. 2. Os exercícios espirituais de Pierre Hadot Ao propor a tese dos exercícios espirituais, Hadot afirma que escolheu a expressão exercícios espirituais devido ao fato deste se apresentar como o único adjetivo ou qualidade que: permite entender bem que esses exercícios são obra não somente do pensamento, mas de todo o psiquismo do indivíduo e, sobretudo, ela revela as verdadeiras dimensões desses exercícios: graças a eles, o indivíduo se eleva à vida do Espírito objetivo, isto é, recoloca- se na perspectiva do Todo (“Eternizar  -se ultrapassando- se”) 1  (HADOT, 2002, p. 21). Outros termos, tais como exercícios éticos, morais, psíquicos, de pensamento ou de conhecimento não bastariam para representar a experiência antiga que o interessava e que ele iria descrever, apesar de serem essas expressões também muito sedutoras. Tal expressão, por sua vez, apesar de remeter etimologicamente ao termo latino exercitium spirituale na verdade corresponde srcinalmente a uma experiência ainda mais antiga, a dizer, à askesis  2   grega. Na verdade, Hadot afirma que as práticas de exercícios espirituais podem remeter a tempos imemoriais, tendo em vista “jamais houve início absoluto na história do pensamento” (HADOT, 2011, p. 259). Segundo Hadot, existem alguns estudiosos que defendem que elas poderiam 1  A página citada se refere à página do srcinal em francês, porém a tradução utilizada nas citações foi gentilmente cedida por F. Loque e L. Oliveira, cuja tradução pela É Realizações   se encontra atualmente no prelo. 2  Em outros momentos, Hadot também utilizar o termo meletê  juntamente com askesis  . Cf. HADOT, 2011, p. 259.  4 ser observadas tanto na Grécia Arcaica, como entre os pensadores pré-socráticos 3  e também nas tradições mágico-religiosas e xâmanicas, mas que segundo seus estudos tais práticas só emergiram na consciência ocidental na forma como ele as concebe a partir de Sócrates, tendo em vista de que foi a partir deste que podemos observar uma rigorosa necessidade de controle racional. Entretanto, Hadot não nega que por conjectura possa “ter existido toda uma pré -história da vida filosófica e das práticas a ela vinculadas” (HADOT, 2011. p. 271).  Hadot afirma também que apesar de muitos escritos fazerem alusão aos exercícios espirituais, não existe um tratado sistemático 4  que codifique de maneira exaustiva o ensino (teoria) e as técnicas de como eles eram em cada escola filosófica da Antiguidade, e que a partir desses escritos podemos pelo menos listar um panorama geral de como se dava essa terapêutica filosófica e supor que tais práticas faziam “parte de um ensino oral e eram vinculadas ao uso da direção espiritual” (HADOT, 2011. p. 271) . Tais práticas espirituais possuem um parentesco que pode ser reconhecido devido ao fato de todas elas reconduzirem “a dois movimentos de tomada de consciência de si: concentração e dilatação do eu” (HADOT, 2011. p. 273) e serem designadas pelo mesmo ideal, a dizer, o da figura do sábio. Para a Antiguidade, principalmente nas escolas helenísticas e romanas, a filosofia era um exercício espiritual, uma atitude e prática concreta, uma arte de viver e um estilo de vida que engloba toda a nossa existência. Para eles, o ato filosófico se situa no eu e no ser, e não no conhecimento, essa visão do sujeito de conhecimento que temos hoje é uma forte herança da concepção de sujeito herdada da filosofia moderna. Sendo assim, as escolas filosóficas da Antiguidade concebiam os exercícios espirituais “como uma prática destinada a operar uma mudança radical do ser” (HADOT, 2011, p. 254), práticas essas que eram “voluntárias e pessoais 3  Mais especificamente a respeito da possível existência e prática de exercícios espirituais na Grécia Arcaica ou entre os pré-socráticos, Hadot afirma muitos dos testemunhos tardios que temos dessa época são projeções idílicas e que refletem ideias estoicas e platônicas, mas também que mesmo a respeito dos fragmentos conservados não podemos ter clareza interpretativa a respeito dos sentidos das palavras empregadas. Entretanto, podemos encontrar alusões à supostos exercícios de memória praticados no pitagorismo, por exemplo, assim como técnicas de controle respiratório, relacionadas à noção da alma como um sopro ou do suicídio através da asfixia. 4  Hadot menciona a existência de tratados intitulados Sobre o Exercício  , mas que sob esse título só nos restou o pequeno tratado do estóico Musônio Rufo.  5 destinadas a operar uma transformação do eu” (HADOT, 2011, p. 259). A diferença entre as escolas acabava por ser mais uma diferença entre tipos de discurso filosófico, que por sua vez também acarretam pequenas diferenças entre modos de vida 5 , mas a noção da prática e vivência desses exercícios aliados aos seus discursos é o que caracterizaria a experiência antiga. Alguns exemplos de exercícios espirituais das mais diversas escolas filosóficas podem ser mencionados, como: a atenção, a meditação, a lembrança do que é bom, a leitura, a audição, a pesquisa, o exame aprofundado, o domínio de si, a realização dos deveres, a indiferença às coisas indiferentes, a condução da alma à alegria de existir, o não temer o que não deve ser temido e não desejar o que não é necessário, o exame da consciência, o cuidado de si, a mudança de perspectiva visando sempre o universal, a contemplação da totalidade, a elevação do pensamento, entre outras. Esses exercícios tinham como objetivo uma transformação da visão de mundo, uma metamorfose da personalidade e do comportamento de quem os praticava, visavam o aperfeiçoamento e a realização de si. Os exercícios espirituais, é preciso ressaltar, não eram acúmulos de discursos e ensinamentos abstratos, eles precisavam se tornar natureza e vida no sujeito, ou seja, durante o esforço sempre renovado do indivíduo o seu eu precisava se metamorfosear. A conversão filosófica era vista como positiva, os fazia ser mais, concedia autenticidade, consciência, paz, realizava e mudava a visão e o jeito de ser no mundo e é exatamente por isso que a filosofia antiga é caracterizada como uma terapêutica das paixões, sendo que as escolas se diferenciariam pelos seus diversos métodos terapêuticos. 3. A permanência da experiência antiga na atualidade    5  Segundo Hadot, podemos observar na Antiguidade a existência de um modo de vida filosófico e de um discurso filosófico que justifica, motiva e influencia essa escolha de vida, sendo que ambos são simultaneamente incomensuráveis e inseparáveis.
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