Aprendendo línguas estrangeiras em tandem (1)

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Aprendendo línguas estrangeiras em tandem (1)
   Aprendendo línguas estrangeiras in-tandem:  histórias de identidades Maria Luisa Vassallo Università Ca’ Foscari de Veneza, Itália Universidade Estadual Paulista, S.J. Rio Preto/SP, Brasil  João A. Telles Universidade Estadual Paulista, Assis/SP, BrasilRESUMO: A Pesquisa Narrativa de Clandinin & Connelly (2000) compreendea experiência humana como histórias vividas e contadas. Nesta abordagem qualitativa de pesquisa, os participantes contam histórias e os pesquisadores as recontam e asreconstroem por meio de narrativas acerca das experiências. Tendo este arcabouçometodológico como orientador de nossos procedimentos de pesquisa, neste artigoinvestigamos nossa experiência compartilhada de aprendizagem in-tandem  doportuguês e do italiano – no caso, uma experiência de oito meses por meio de umtandem face-a-face. Neste período, vivenciamos e coletamos dados acerca de nossoprocesso de aprender a língua um do outro: anotações de campo, mensagens reflexivasde e-mail trocadas durante o período e o conteúdo anotado durante as aulas. Aoreviver nossas histórias vividas durante aquele período, por meio da narrativa aquiapresentada, ressaltamos os elementos de identidade no nosso tandem que acreditamosestarem relacionados à aprendizagem. Também individuamos os elementosdesencadeadores de identidade específicos deste contexto de aprendizagem.PALAVRAS-CHAVE: Pesquisa Narrativa, aprendizagem in-tandem, identidade,língua estrangeira, tandem face-a-face. 1. Introdução Uma questão muito discutida no campo da Lingüística Aplicada há já uma década diz respeito ao binômio aprendizagem de língua/identidade. Talquestão é difícil de ser enfocada por causa da amplitude do conceito deidentidade, que pertence a várias áreas diferentes e depende do viés adotado. 1 1  Por exemplo, o self    pesquisado por meio da abordagem cognitiva na psicologia social, visto como uma rede de conhecimentos e de informações organizadas, édiferente da identidade pesquisada pelas correntes que adotam a abordagem social,enfocadas nas relações inter-indivíduos ou inter-grupos (MANCINI, 2001); esta última tem mais a ver com os conceitos adotados nas pesquisas da Lingüística  Aplicada, geralmente atrelada a uma visão social da linguagem.  Rev. Brasileira de Lingüística Aplicada, v. 8, n. 2, 2008342 Neste artigo abordamos o assunto em relação a um contexto deaprendizagem particular, a aprendizagem in-tandem, descrita no primeirotópico, e por uma metodologia de pesquisa de cunho narrativo, que trazconsigo um conceito específico de identidade   – ambas apresentadas na segunda parte deste artigo. A terceira parte exporá nossas reflexões deflagradas por meioda pesquisa e nossas considerações finais a respeito do que aprendemos. 1.2. Aprendendo línguas estrangeiras in-tandem Tandem  é o nome de uma forma de aprendizagem que se srcinou na década de sessenta na Europa e não era muito conhecida no Brasil até poucotempo atrás. 2  Consiste em um trabalho em pares, recíproco, autônomo ecolaborativo; é realizado em sessões regulares bilíngües por falantescompetentes de duas línguas diferentes que querem aprender cada um a língua do outro. As sessões de tandem são divididas em duas partes, dedicadas cada uma somente a uma língua. Nelas, os parceiros revezam-se nos papéis deaprendiz e de falante competente, dependendo da língua de competência decada um. Cada parte da sessão geralmente dura pelo menos uma hora e podechegar a duas ou mais. Dependendo da forma de tandem desenvolvida (VASSALLO, 2006), os parceiros são totalmente ou parcialmente livres deorganizar as atividades que julgam oportuno desenvolver com o parceiro,geralmente associadas à oralidade.Em comparação com outros contextos de ensino/aprendizagem, oTandem possui características particulares. Em primeiro lugar, sua estrutura édupla, implicando cada tandem o enfoque sobre duas línguas e culturas emigual plano de relevância. Isto impede que a língua materna do aprendiz, comofacilmente pode acontecer em outros contextos, permaneça em segundo planoe que os participantes assumam uma postura unívoca, tendo que se revezarcontinuamente em dois papéis complementares – aquele de falante maiscompetente/nativo e aquele de falante menos competente. Em segundo lugar,o Tandem é um contexto informal, desenvolvido em forma de relacionamento 2  Hoje, porém, está sendo desenvolvido no Brasil, por uma equipe de pesquisadoresda Universidade Estadual Paulista (UNESP), o projeto Teletandem Brasil: Línguas Estrangeiras para Todos  . Ver www.teletandembrasil.org . Este projeto experimenta oTeletandem, uma forma de Tandem a distância desenvolvida por meio do InstantMessaging e da video-telefonia pela Internet (VASSALLO; TELLES, 2006; ver,também, TELLES; VASSALLO, 2006).  Rev. Brasileira de Lingüística Aplicada, v. 8, n. 2, 2008343 particular, entre duas pessoas, não acontece à frente de um público ou emsituação formal– como poderia ser em sala de aula. Finalmente, o Tandemimplica um duplo nível de atenção dos parceiros: interagindo, eles devemmanter a atenção enfocada tanto sobre o conteúdo da interação quanto sobrea forma da língua usada, para poderem entrar em processos de colaboração.Tais características levam a duas implicações para as atividadescolaborativas implícitas no Tandem: a relevância da relação entre os parceirose o estímulo da reflexão acerca da língua e da cultura materna e acerca dasformas de aprendizagem que emergem na relação entre os parceiros. Nopresente artigo, tentaremos mostrar que tais características e implicações sãorelevantes para a pesquisa sobre identidade e aprendizagem de línguas e que oTandem fornece a nós, pesquisadores, um excelente contexto para o estudo dasmesmas. 1.3.Metodologia: a pesquisa narrativa de Clandinin e Connellye as  histórias que cada um escolhe para viver   A Pesquisa Narrativa (CLANDININ; CONNELLY, 1995, 2000;CONNELLY; CLANDININ, 1988) que adotamos para realizar este estudobusca compreender a experiência como histórias vividas e contadas. Nesta modalidade qualitativa de pesquisa, os participantes contam histórias   e ospesquisadores escrevem narrativas   – relatos reflexivos, muitas vezesteoricamente orientados, acerca dessas histórias. As narrativas se constituem emmodos de se compreender a experiência vivida dos participantes da pesquisa.Por meio delas, os pesquisadores lançam significados sobre aqueles que já foramdados pelos participantes. Para Clandinin & Connelly (op. cit), “(...) históriasvividas pelas pessoas são experiências. As pessoas vivem histórias e, ao contá-las,reafirmam-nas, modificam-nas e produzem novas histórias” (CLANDININ;CONNELLY, 2000, p. xxvi). Ao estruturarmos nossas experiências de modohistoriado (narrativo), educamos a nós mesmos; ao contá-las, educamos osoutros. Do ponto de vista deste arcabouço metodológico inovador, a narrativa é, simultaneamente, fenômeno e método de estudo (p. 4).Pesquisadores que trabalham com a Pesquisa Narrativa pensam demodo narrativo ao entrar em relações de pesquisa com seus participantes,produzindo textos de campo  (p.92-118). Exemplos desses textos de campo  (os dados   – termo utilizado pela pesquisa tradicional) utilizados por pesquisadoresnarrativos são: anotações, histórias, autobiografias, diários, cartas (enviadas enão-enviadas), conversas gravadas em áudio, entrevistas, histórias de   famílias  Rev. Brasileira de Lingüística Aplicada, v. 8, n. 2, 2008344 e histórias sobre   famílias. 3  Mais abaixo, o leitor poderá perceber que, nesteestudo, utilizamos uma mescla desses vários tipos de textos de campo , algunscom variações, como por exemplo, mensagens de e-mail, ao invés de cartasenviadas, os quais foram rotineira e rigorosamente coletados. De acordo comClandinin & Connelly (2000), a composição de textos de campo  (a) é parte doprocesso interpretativo; (b) expressa a relação entre o pesquisador e oparticipante (no caso deste estudo, fomos participantes e pesquisadores denossa própria relação no contexto do tandem, estudando nossas prática) e (c)funciona em um espaço, chamado pelos autores de espaço tridimensional da  pesquisa narrativa   – temporalidade, espacialidade e o pessoal/social  . Tal espaçopermite que o pesquisador narrativo trabalhe “(...) dentro de um contexto depesquisa tridimensional que é aberto e sem fronteiras: ao compor textos decampo, os pesquisadores necessitam estar conscientes do espaço no qual elese seus participantes estão, em um determinado momento histórico, em termosdo pessoal e do social. Finalmente, para esta modalidade qualitativa depesquisa, é necessária a composição de vários tipos de textos de campo, poisestes se entrelaçam para a composição das narrativas. Narrativas   são relatos historiados a partir dos textos de campo  – o queesses autores chamam de textos de pesquisa   (p.119). A produção de uma narrativa (como o presente artigo) é, segundo Clandinin & Connely (2000),uma transição desafiadora e pode se dar em meio à própria pesquisa (p.119).Nesta transposição de textos de campo para narrativas, um dos desafios dopesquisador ao produzir uma narrativa é justamente partir da dimensão pessoalda experiência vivida à dimensão social; caso contrário, a narrativa não passará de um movimento narcisista.Para evitar tal limitação, é necessário dar constante atenção a tridimensionalidade da Pesquisa Narrativa  . Por exemplo, as histórias que narraremos neste artigoestiveram situadas em um espaço  (apontam para determinada situação), emdeterminada temporalidade   (dentro de um determinado tempo – presente, passadoe futuro) e transitaram entre as dimensões pessoal e social de nossas experiênciasvividas. Ao escrevermos o presente artigo narrativo (texto de pesquisa) acerca denossas experiências de ensino/aprendizagem in-tandem , tivemos que aprendera pensar sobre elas de modo narrativo, prestando atenção às nossas vidas com aslínguas estrangeiras (italiano e português) como vividas narrativamente e, também,de contextualizar nossa investigação dentro deste espaço tridimensional metafórico 3  Em inglês : family stories, stories of families   (CLANDININ; CONNELLY, 2000, p. 112)  Rev. Brasileira de Lingüística Aplicada, v. 8, n. 2, 2008345 (p.120). Portanto, a narrativa aqui apresentada por meio deste artigo só terá o efeito esperado pela Pesquisa Narrativa se os seus efeitos forem entrelaçadoscom as histórias vividas pelos próprios leitores deste artigo. Somente assim opessoal por nós vivido terá uma justificativa social, fazendo com que os leitoresaprendam algo ao ouvir nossas histórias e produzam significados a partir denossas experiências com a aprendizagem de línguas estrangeiras in-tandem .Por fim, ao revermos nossos textos de campo produzidos enquantotecíamos nossa história de ensino/aprendizagem in-tandem, a seguinte pergunta de pesquisa emergiu de nossas reflexões: Qual a relação entre aprendizagem de línguas e identidade, concebida em termos narrativos conforme Clandinin & Connelly , no específicotandem pesquisado? 2. Um Tandem italiano-português O tandem pesquisado foi em italiano-português, presencial,  profissional  (ou seja, entre profissionais do mesmo setor), não institucional   (ou seja, quenão foi promovido ou realizado dentro de um contexto institucional, talcomo uma escola de línguas ou uma faculdade) e não aconselhado (ou seja, osparceiros não se apoiaram, para o desenvolvimento do tandem, a uma mediação externa, sendo ambos profissionais do ensino, um dos quais já comexperiências prévias de tandem). A duração do nosso processo de tandem foide oito meses, sendo realizado pelos próprios autores deste artigo em uma cidade no interior do estado de São Paulo, em casas particulares, com sessõesde cerca de quatro horas por semana.De nós dois, João, falante nativo de português brasileiro e cidadãobrasileiro, havia sido anteriormente professor de inglês e era docenteuniversitário de Prática de Ensino; estava com 49 anos e já havia desenvolvidooutros tandems, anteriormente. Luisa, falante nativa de italiano, havia sido na Itália professora de Latim, Grego e Italiano no ensino médio; vivia no Brasilhá dois anos e meio e atuava como leitora junto à cátedra de italiano, na mesma universidade de João, onde deveria permanecer por quatro anos; estava com46 anos. Na época na qual o tandem começou, a competência de Joãocorrespondia ao nível A1-A2 do Quadro Comum de referência europeu, ou seja,elementar; Luisa estava em um nível intermédio-avançado: aproximadamente B1nas habilidades ativas (fala e na escrita) e C1 naquelas passivas (leitura e escuta).Depois de algumas sessões iniciais de familiarização, o nosso trabalhocomum organizou-se em torno de três pilares:
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