ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A FASE TARDIA DA IDADE DO FERRO NO OCIDENTE ATLÂNTICO

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Durante as últimas décadas tem-se assistido a um debate no seio da comunidade científica centrado na identidade cultural das populações que habitaram a costa atlântica do território peninsular durante o período sidérico. São várias as interpretações
  OPHIUSSA. Revista do Centro de Arqueologia da Universidade de LisboaISSN 1645-653XPublicação anualVolume 1 – 2017Direcção e Coordenação Editorial: Ana Catarina Sousa Elisa Sousa Rui BoaventuraConselho Científico: André Teixeira (Universidade Nova de Lisboa) Carlos Fabião (Universidade de Lisboa) Catarina Viegas (Universidade de Lisboa) Gloria Mora (Universidad Autónoma de Madrid) Grégor Marchand (Centre National de la Recherche Scientifique) João Pedro Bernardes (Universidade do Algarve) José Remesal (Universidade de Barcelona) Leonor Rocha (Universidade de Évora) Manuela Martins (Universidade do Minho) Maria Barroso Gonçalves (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa) Mariana Diniz (Universidade de Lisboa) Raquel Vilaça (Universidade de Coimbra) Xavier Terradas Battle (Consejo Superior de Investigaciones Científicas)Secretariado: André PereiraCapa: André Pereira sobre Báculo do Sobral do Martim Afonso (desenho de Marco Andrade).Paginação: Elisa Sousa Impressão: EuropressData de impressão: Novembro de 2017Edição impressa (preto e branco)200 exemplaresEdição digital (a cores)www.ophiussa.letras.ulisboa.pt ISSN: 1645-653X Depósito legal: 190404/03Copyright © 2017, os autoresEdição: UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de LisboaFaculdade de Letras de Lisboa1600-214 – Lisboawww.uniarq.net - www.ophiussa.letras.ulisboa.pt - uniarq@letras.ulisboa.ptO cumprimento do acordo ortográfico de 1990 foi opção de cada autor.  * - Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Uniarq – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa / Fundação para a Ciência e a Tecnologia. e.sousa@campus.ul.pt ELISA DE SOUSA * RESUMOABSTRACT OPHIUSSA Volume 1, 2017, páginas 91-104 ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A FASE TARDIA DA IDADE DO FERRO NO OCIDENTE ATLÂNTICO Durante as últimas décadas tem-se assistido a um debate no seio da comunidade científica centrado na identidade cultural das populações que habitaram a costa atlântica do território peninsular durante o período sidérico. São várias as interpretações que se enfrentam nesta questão ainda que, com alguma frequência, as suas bases estejam assentes em selecções parciais da realidade arqueológica. Para esta situação contribuiu, em parte, o próprio carácter fragmentário da cultura material disponível para o estudo deste período histórico, passível de suportar diferentes correntes interpretativas. A informação publicada durante os últimos anos permitiu, contudo, desenvolver análises e caracterizações mais detalhadas dos componentes artefactuais desta área ocidental, adicionando novos dados para a compreensão dos ritmos de evolução dos seus principais núcleos de povoa-mento, particularmente durante a segunda metade do 1º milénio a.C. É com base nestes novos dados que se pretende discutir, neste trabalho, as várias propostas de integração cultural destas comunidades e, em última análise, sublinhar as características que permitem valorizar a existência de uma identidade autónoma, com particularidades regionais, desta zona centro atlântica.Palavras-chave: Idade do Ferro; Atlântico; Identidade cultural; Púnico; Turdetano.The debate among the scientific community concerning the cultural identity of the Iron Age habitants from the Iberian Penin-sula´s Western Atlantic coast generated different interpretations, often based on partial selections of the archaeological reality. On the other hand, the associated material culture, which is frequently quite fragmented, was never the subject of thorough studies. This situation has, subsequently, produced a variety of hypotheses, all of which easily integrated in different theoretical models. Fortunately, during the last few years, it was possible to carry out a detailed analysis of the archaeological evidence from these western territories, which allowed a more specific characterization and evolution of the area during the second half of the 1st millennium BCE. Based on this new data, we discuss, in this paper, the different interpretations for cultural character-ization of these communities and, ultimately, aim to emphasize the features that allow to confirm the existence of an autono-mous identity, with specific regional features, in this Center Atlantic area.Keywords: Iron Age; Atlantic; Cultural identity; Punic; Turdetanian.  ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A FASE TARDIA DA IDADE DO FERRO NO OCIDENTE ATLÂNTICO* ELISA DE SOUSAOPHIUSSA, 1 󰀨2017󰀩 92 1. INTRODUÇÃO Os dados associáveis à fase mais tardia da Idade do Ferro da costa ocidental atlântica da Península Ibérica permaneceram, até à relativamente pouco tempo, mal caracterizados. A escassez de intervenções arqueológicas extensas e, principalmente , a insuficiência dos dados publicados sobre as ocupações da segunda metade do 1º milénio a.C. conduziram a um conhecimento bastante vago dos contextos culturais referentes a este período. Tal situação potenciou, por sua vez, a inclusão desta área geográfica em ambientes culturais mais amplos e típicos da zona meridional da Península Ibérica.Com efeito, no decurso das últimas duas décadas, assistiu-se ao eclodir de dois cenários interpretativos que, apesar de ligeiramente distintos nas suas premissas, coincidem na noção de uma sólida integração desta realidade costeira ocidental nos circuitos culturais e comerciais da actual Andaluzia. Os estudos recentemente desenvolvidos na área centro-atlântica geraram, contudo, uma série de novos dados arqueológicos que, ao permitirem delinear de forma mais detalhada os rasgos particulares das comunidades locais, despoletam a necessidade de uma reflexão mais cuidada sobre os cenários interpretativos aplicáveis a estas realidades. 2. A CORRENTE TARTÉSSICO󰀭TURDETANA A hipótese de uma integração da costa atlântica portuguesa na esfera cultural turdetana, resultante de uma presumida herança tartéssica, é um dos cenários que, seguindo a linha de outras interpretações precedentes (Maia 1985: 170; De Hoz 1995: 598), é actualmente defendido por investigadores como M. Torres Ortiz e M. Almagro Gorbea (Torres Ortiz 2005; 2013; Almagro-Gorbea - Torres Ortiz 2009). Esta corrente interpretativa tem como principal sustento uma série de aspectos linguísticos (topónimos e antropónimos) registados quase exclusivamente nas fontes clássicas e epigráficas do período romano. Na óptica de tal perspectiva, foi salientada a frequência do sufixo – ipo  na toponomástica atlântica (Lisboa – Olisipo ; Alcácer do Sal – Beuipum ; S. Sebastião de Freixo(?) – Collipo ; área de Elvas(?) – Dipo ), que é considerado como um elemento linguístico recorrente no vale do Guadalquivir (Villar 1999: 703-707; Torres Ortiz 2005: 195-196; 2013: 449-450; Almagro-Gorbea - Torres Ortiz, 2009: 117), sendo plausivelmente relacionado com um idioma tartéssico-turdetano, que se teria sucessivamente cristalizado nas fontes de época romana. Por outro lado, e no que diz respeito aos antropónimos, esta corrente interpretativa valorizou uma possível relação entre os nomes de magistrados presentes nas legendas das cunhagens monetárias de Alcácer do Sal ( Odacis, Siscra, Sisbe, Sisucurhil  ) e a tradição antroponímia da área do Baixo Guadalquivir. Paralelamente, a semelhança verificada entre a prosopografia monetária de Alcácer do Sal e as temáticas iconográficas das cunhagens da área andaluza foi considerada como um outro válido argumento esgrimido na defesa de uma etnogénese turdetana do litoral centro-atlântico (Faria 1992: 45; Torres Ortiz 2005: 196; 200). Uma série de outras referências patentes nas fontes clássicas, como os testemunhos de Plínio o Velho ( Nat. Hist.  IV, 113) e Pompónio Mela ( de Chor.  III, 1,6) relativos à existência de Turduli Veteres  na região compreendida entre os estuários dos rios Tejo e do Douro, conjuntamente com a classificação, por Ptolomeu ( Geog . II, 5, 2-4), das antigas cidades de Salacia  (Alcácer do Sal) e Caetobriga  (Setúbal) como centros turdetanos (Torres Ortiz 2005: 194; 2013: 449; Almagro-Gorbea - Torres Ortiz 2009: 122), reforçavam também essa interpretação. No que diz respeito aos dados arqueológicos, foram estabelecidos uma série de paralelismos entre as evidências recuperadas na única necrópole sidérica do litoral do Ocidente Atlântico (Senhor dos Mártires, Alcácer de Sal) e os designados ambientes funerários “tartéssicos” do Baixo Guadalquivir e da Extremadura espanhola. Ulteriores elementos adoptados na defesa desta hipótese foram indicados com base em similitudes detectadas nos grafitos pré-romanos de Santa Olaia, no estuário do Mondego, e outras marcas recolhidas na chamada “área tartéssica” (Torres Ortiz 2005: 201; 2013: 453-454). Por último, foi ainda valorizado um pequeno conjunto de vasos manuais e de cerâmica cinzenta recuperados em Santarém (Arruda 1999-2000: 183) e Lisboa (Arruda - Freitas - Vallejo Sánchez 2000: 44), decorados internamente com motivos brunidos, que foram correlacionados com o mundo andaluz (Torres Ortiz 2005: 203-204; 2013: 455), onde este tipo de decorações é característico quer durante o Bronze Final quer durante a Idade do Ferro.O conjunto destes elementos foi interpretado, segundo esta perspectiva, como evidência de uma colonização tartéssica do território compreendido entre a foz do rio Tejo e do Sado, que se teria desenvolvido entre o final do século VIII a.C. e a centúria seguinte, com o objectivo de estabelecer um controlo directo das rotas comerciais e dos  ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A FASE TARDIA DA IDADE DO FERRO NO OCIDENTE ATLÂNTICO * ELISA DE SOUSAOPHIUSSA, 1 󰀨2017󰀩 93 recursos agrícolas desta área. O elemento étnico-cultural tartéssico, que marcaria esta região durante a primeira metade do 1º milénio traduzir-se-ia, após o século V a.n.e, numa realidade turdetana (Torres Ortiz 2005: 200; 2013: 457; Almagro-Gorbea - Torres Ortiz 2009: 122).Independentemente do cariz atractivo postulado por esta corrente interpretativa, devem assinalar-se vários elementos que obrigam a uma r eflexão mais aprofundada. Neste trabalho não se pretende afrontar a problemática relativa à definição do que se deve considerar como “tartéssico”, um conceito que, quer a nível literário, quer na perspectiva histórico-arqueológica, incorpora diferentes interpretações: se a perspectiva de cariz marcadamente indigenista (Torres Ortiz 2002; Alvar Ezquerra 1994, entre outros) parece, em grande parte, ter sido progressivamente substituída por uma mais coerente interpretação que acentua as relações e mútua influência entre as comunidades nativas andaluzas e as populações orientais (Wagner 1983; Ruiz Mata 2000; Celestino Pérez 2008, entre outros), a hipótese de uma ver-dadeira e própria coincidência entre a ideia de “Tartessos” e o mundo fenício ocidental (Álvarez Martí-Aguilar 2009; Wagner 2011; Fernández Flores - Rodríguez Azogue 2007, entre outros) parece, em meu entender, igualmente convincente e, inclusivamente, até mais plausível. Contudo, e mesmo admitindo a existência de uma comunidade tartéssica andaluza de carácter eminentemente autóctone e particularmente activa em termos expansionistas, torna-se difícil aceitar, com base nos dados arqueológicos disponíveis, que esta fosse capaz de impulsionar um processo de colonização do território centro-atlântico (Arruda 2013: 215). Para além do mais, os argumentos adoptados em defesa de tal possibilidade, enunciados anteriormente, podem para todo o efeito, ser objecto de interpretações alternativas. Em primeiro Fig. 1  - Principais áreas referidas no texto: 1 - estuário do Mondego; 2 - estuário do Tejo; 3 - estuário do Sado; 4 - Algarve; 5 - área turdetana e púnico-gaditana; 6 - Norte de Portugal e costa da Galiza.
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